07/09/2010

O Mundo Pós Americano - Fareed Zakaria

O MUNDO PÓS-AMERICANO

fonte: Le monde

No livro “The Post-American World”, Fareed Zakaria nos convida a olhar em volta e perceber o quanto símbolos de poder outrora imediatamente identificados com os Estados Unidos hoje enchem os olhos de cidadãos no “resto” do globo: o maior prédio do mundo fica em Taipei e o próximo será erguido em Dubai; a maior empresa pública de comércio fica em Beijing; a maior refinaria do mundo está sendo construída na Índia, o maior avião de passageiros, na Europa; o maior fundo de investimentos do planeta fica em Abu Dhabi; a grande indústria cinematográfica é Bollywood, não Hollywood; a maior montanha-russa fica em Singapura; o maior cassino, em Macao; e, na lista dos dez maiores shopping centers do mundo, nenhum é norte-americano. Por fim, nos mais recentes rankings, apenas duas das pessoas mais ricas do mundo são norte-americanas. Como alguém que acaba se dando conta de um óbvio silencioso, Zakaria inverte algumas premissas da atualidade e sentencia: “enquanto nos perguntamos por que eles nos odeiam, eles seguem em frente, muito mais interessados em partes mais dinâmicas do globo. O mundo mudou do anti-americanismo para o pós-americanismo”. O mundo pós-americano de Zakaria é o mesmo mundo “não-polar” de Richard Haass, autor de artigo de capa na Foreign Affairs. Para ambos, o presente momento histórico não assiste ao declínio norte-americano, mas a ascensão do “resto” – sim, esse é o termo usado por Zakaria, “the rest”. Para o editor da Newsweek, “the rest” significa os grandes mercados emergentes conforme designado por Antoine van Agtamel no seu The Emerging Markets Century (Free Press, 2007). Tal mercado inclui Brasil, Argentina, Chile, Malásia, México, Taiwan, Índia e China. Já para Haass, o resto é isso e mais um punhado de “poderes” regionais, como Egito, Venezuela e Austrália, algumas organizações internacionais – Banco Mundial, FMI e Liga Árabe de Estados –, mais algumas cidades-poder, como São Paulo e Xangai, além de outras entidades como o Hezbolah, a Cruz Vermelha e o Greenpeace. Para Zakaria, no que diz respeito a aspectos político e militar, nós ainda vivemos em um mundo unipolar, mas em todos os outros – industrial, financeiro, social e cultural – a distribuição de poder está mudando e afastando-se da dominação norte-americana. Haass vai mais longe ao afirmar que a característica que define o século 21 é a não-polaridade, ou seja, o mundo dominado não por um (unipolaridade), dois (bipolaridade) ou vários Estados (multipolaridade), mas por diversos atores, estatais e não-estatais, exercendo vários tipos de poder.
Essa temática já havia sido abordada na edição de janeiro de 2008 da Foreign Affairs, com o artigo de John Ikenberry, “The rise of China and the future of

the West”, que serviu como uma espécie de abre-alas para a atual edição da revista. Ikenberry é categórico na sua definição do mundo do século 21: “O momento unipolar norte-americano irá acabar. Se a guerra que definirá o século 21 for entre os Estados Unidos e a China, então a China vencerá, mas se a guerra for entre a China e um sistema ocidental renovado, então o Ocidente triunfará”. E como se processaria essa renovação? De acordo com Ikenberry, a ordem ocidental do pós-Segunda Guerra é única. Qualquer ordem dominada por uma potência é baseada em um mix de coerção e consenso. Porém, a ordem liderada pelos Estados Unidos é diferente, pois é mais liberal do que imperial e, por isso mesmo, tão acessível, legítima e durável, o que faz com que seja difícil derrubá-la e fácil aderir a ela. Assim, os Estados Unidos devem reinvestir na ordem ocidental, reforçando as características que encorajam engajamento e integração. Contudo, diferentemente de outros autores do passado, como Robert Gilpin, que acreditavam que tal ordem deveria ser reerguida a partir do antigo tripé Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão, Ikenberry, Zakaria e Haass insistem na necessidade de os Estados Unidos empreenderem esforços redobrados no sentido de integrar os Estados em ascensão, mais precisamente os BRIC’s, em instituições globais chave. Para Ikenberry, os EUA não tem como impedir a ascensão chinesa, mas podem fazer com que o poder chinês seja exercido dentro das normas e instituições que os Estados Unidos e seus aliados construíram ao longo das últimas décadas. A posição global dos EUA talvez esteja enfraquecendo, mas o sistema internacional que eles lideram pode continuar sendo a ordem dominante do século 21. E esse sistema só irá continuar funcionando se os newcomers forem chamados a assumir a posição que dignamente lhes cabe no latifúndio do poder mundial ou na governança global. Para o leitor brasileiro, o que chama a atenção é a constante referência ao país como um pólo de poder internacional. Em setembro de 2006, a revista The Economist publicou uma reportagem especial, intitulada The new titans: a survey of the world economy, segundo a qual o G-6 já não era mais a locomotiva da economia mundial, pois os novos carros-chefe da economia global seriam os BRIC’s – Brasil, Rússia, Índia e China. “BRIC’s” é o acrônimo cunhado pelo grupo Goldman Sachs para designar os quatro principais países emergentes do globo. Com base em projeções demográficas, modelos de acumulação de capital e crescimento de produtividade, o grupo especulou que: 1) em menos de 40 anos, as economias BRIC’s seriam maiores do que o atual G-6 (Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França e Itália);
2) do atual G-6, apenas os Estados Unidos e o Japão estarão entre as seis maiores economias do mundo em 2050. Essas seguirão uma ordem: China, Estados Unidos, Índia, Japão, Brasil e Rússia.

A inclusão do Brasil na seleta lista dos “grandes emergentes” tem fundamento. Em um relatório apresentado pelo periódico Asian Perspective, em 2007, sob o título Brazil: to be or not to be a BRIC?, Paulo Sotero e Leslie Elliott Armijo apresentam algumas das potencialidades brasileiras: 1) o Brasil é um poder “ocidental”, cujo alinhamento com os valores ocidentais não gera dúvidas ou temores; 2) temos um perfil de liderança pelo exemplo e pelo respeito, já que não possuímos capacidade militar ofensiva relevante; 3) somos uma potência ambiental que possui enormes recursos naturais e grande possibilidade de desenvolvimento agrícola; 4) temos uma política externa universal e com influência nos fóruns internacionais – vide G-20; 5) não enfrentamos problemas religiosos e/ou de minorias étnicas e conflitos separatistas (como a Rússia / chechenos, China / Tibet e Xinjiang e Índia / Caxemira); e, por fim; 6) o regime democrático brasileiro está consolidado. Claro que também temos as nossas fraquezas – absurda concentração de renda, educação de péssima qualidade e força militar risível. De qualquer maneira, o Brasil foi agrupado juntamente com três potências asiáticas, nuclearizadas, cujo desenvolvimento econômico se processou sob inspiração comunista e que, mesmo após a abertura de suas economias para o mercado, o Estado continua tendo papel central na condução da vida econômica do país. Se o “B” dos BRIC’s foi artificialmente ali introduzido para negar o sucesso do modelo asiático de desenvolvimento econômico orientado pelo Estado e inserção política internacional autônoma, ou se nossas potencialidades são mesmo inquestionáveis em um mundo que precisa de alimentos, combustíveis alternativos, modelos de democracia e lideranças capazes de agir sem o respaldo de armas nucleares, só o tempo dirá. Por hora, cabe aos formuladores de política externa brasileira e àqueles que pensam as relações internacionais do Brasil atentar para a atual posição que nosso país ocupa no debate intelectual norte-americano sobre a nova ordem mundial e quais são, exatamente, as vantagens e desvantagens, obrigações e potencialidades, de nossa inclusão no seleto grupo dos BRIC’s.

The Rise of China and the Future of the West | Foreign Affairs

The Rise of China and the Future of the West | Foreign Affairs

The rise of China will undoubtedly be one of the great dramas of the twenty-first century. China's extraordinary economic growth and active diplomacy are already transforming East Asia, and future decades will see even greater increases in Chinese power and influence. But exactly how this drama will play out is an open question. Will China overthrow the existing order or become a part of it? And what, if anything, can the United States do to maintain its position as China rises?

Some observers believe that the American era is coming to an end, as the Western-oriented world order is replaced by one increasingly dominated by the East. The historian Niall Ferguson has written that the bloody twentieth century witnessed "the descent of the West" and "a reorientation of the world" toward the East. Realists go on to note that as China gets more powerful and the United States' position erodes, two things are likely to happen: China will try to use its growing influence to reshape the rules and institutions of the international system to better serve its interests, and other states in the system -- especially the declining hegemon -- will start to see China as a growing security threat. The result of these developments, they predict, will be tension, distrust, and conflict, the typical features of a power transition. In this view, the drama of China's rise will feature an increasingly powerful China and a declining United States locked in an epic battle over the rules and leadership of the international system. And as the world's largest country emerges not from within but outside the established post-World War II international order, it is a drama that will end with the grand ascendance of China and the onset of an Asian-centered world order

06/09/2010

Relaciones Internacionales

Opiniones Relaciones Internacionales
Esther Barbé

Idioma: CASTELLANO
Tema: Derecho Internacional

La sociedad internacional de nuestros días vive en un estado de incertidumbre y de conmoción. Las transformaciones en materia de seguridad (terrorismo, crimen transnacional, violación masiva de los Derechos Humanos) en la posguerra fría convergen con fenómenos propios de la globalización (nuevas tecnologías, cambio climático, desequilibrio económico) creándose lo que algunos autores han dado en llamar «nuevo tiempo mundial». Nuevo tiempo mundial que nos lleva a fijar nuestra atención en hechos (privatización de la guerra), en conceptos (gobernanza) o en objetivos (desarrollo sostenible) que constituyen desafíos apasionantes para el analista de las relaciones internacionales. Esta obra pretende poner al alcance del estudiante aproximaciones teóricas, conceptos de trabajo, datos básicos e instrumentos de análisis que le animen a seguir el fluir de la relaciones internacionales en esta agitada época. Estas páginas pretenden estimular a los estudiantes para que desarrollen una visión propia de la sociedad internacional. De ahí que el cuerpo central de la obra se vea complementado con una serie de textos, «estratégicamente» seleccionados, que inciten a «repensar» las relaciones internacionales: aportaciones teóricas de diverso signo, reflexiones políticas de destacados estadistas o propuestas de futuro para actores centrales en el marco internacional, como las Naciones Unidas. En suma, el conjunto de la obra ha sido concebido para ayudar al estudiante a desarrollar sus propias ideas. Todo ello habría de potenciar un bien cada día más escaso, pero no por ello menos necesario: el debate en las aulas.

01/01/2010

Guerra Fria - EUA e Rússia devem renovar acordo de redução de armas nucleares.

Guerra fria dividiu mundo em blocos durante quase 50 anos
EUA e Rússia devem renovar acordo de redução de armas nucleares.
Conflito entre potências levou às corridas armamentista e espacial.

Do G1, em São Paulo
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Principais protagonistas da Guerra Fria, período histórico de conflitos indiretos que dividiu o mundo entre 1945 e 1991, Rússia e Estados Unidos estão próximos de chegar a um acordo sobre uma nova estratégia de redução de armas nucleares.


O último acordo, chamado de Tratado Estratégico de Redução de Armas (Start, na sigla em inglês), firmado em 1991, expira seu prazo de validade neste sábado (5). A Casa Branca espera que um novo acordo seja negociado antes do dia 10, a tempo de ser anunciado antes que o presidente Barack Obama receba o prêmio Nobel da Paz.




O presidente da Rússia, Dimitri Medvedev, e seu colega dos EUA, Barack Obama, durante encontro em 10 de julho na cúpula do G8 na Itália. (Foto: AFP)
Um acordo nuclear reduziria o impacto negativo de Obama receber o prêmio logo após ter anunciado o envio de mais 30 mil homens à Guerra do Afeganistão.


Duas principais potências nucleares do mundo, EUA e Rússia (então parte da União da Repúblicas Socialistas Soviética - URSS) disputaram influência política, econômica e ideológica e polarizaram boa parte do mundo em dois grandes blocos capitalista e socialista no período compreendido entre o fim da Segunda Guerra, em 1945, e a dissolução da União Soviética, em 1991.


O conflito é chamado de “Guerra Fria” porque as duas potências não travaram uma guerra direta, mas iniciaram a corrida pela construção de um grande arsenal de armas nucleares. Os dois países também se envolveram indiretamente numa série de conflitos regionais, apoiando os seus aliados nas guerras da Coreia (1950-1953), do Vietnã (1962-1975) e do Afeganistão (1979-1989), entre outras.



Divisão

Ao final da Segunda Guerra, a Alemanha derrotada foi dividida em quatro áreas de ocupação pelas potências vencedoras. Três anos depois, Estados Unidos, Reino Unido e França resolveram criar um Estado único provisório e fazem uma reforma monetária a fim de controlar a inflação galopante da Alemanha Ocidental e aumentando o isolamento da União Soviética, que controlava a quarta região.



Em julho de 1947, os EUA anunciaram o Plano Marshal, que ofereceu ajuda econômica para reconstruir os países aliados da Europa. Em resposta, a URSS lançou o Comecon, para garantir auxílio mútuo entre os países socialistas em 1949.


No mesmo ano, os soviéticos explodiram sua primeira bomba, dando início à chamada “corrida nuclear”. EUA, Canadá e os princiais países da Europa capitalista criam a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), aliança militar que visava proteger os países membros em caso de ataque do leste europeu.






Apoio a guerras

Nos anos 50, os Estados Unidos endureceram a perseguição aos ideais soviéticos com a criação, pelo senador John McCarthy, de um comitê de investigação de atividades comunistas. Todo aquele que apoiasse ou cometesse atos considerados comunistas ficava sujeito a prisão ou extradição.


A política de contenção às atividades comunistas também levou os EUA a apoiar duas guerras: a da Coreia, que resultou na criação de duas nações, uma capitalista no sul, e outra comunista no norte, e a do Vietnã, que também tem participação direta da URSS, e da qual os EUA saem derrotados. Os dois países também testaram suas primeiras bombas de hidrogênio, e a União Soviética reuniu seus aliados na Europa Oriental no Pacto de Varsóvia, em 1955, uma espécie de resposta à Otan.



Corrida espacial

O desenvolvimento tecnológico na produção de mísseis e foguetes também levou as duas potências a uma corrida espacial. Em 1957, a URSS lançou o Sputinik I e o Sputinik II, primeiro artefatos humanos a orbitarem a Terra. O segundo levou a bordo a cadela Laika. No ano seguinte, os EUA entrariam na disputa com o lançamento do Explorer I.


Em 12 de abril de 1961, o russo Yuri Gagarin deu uma volta completa ao redor do planeta, tornando-se o primeiro homem a entrar em órbita. A resposta americana viria em 1969, com a transmissão, ao vivo por redes de televisão, da chegada do primeiro homem à lua.



Muro de Berlim

Em terra, a disputa endureceu ainda mais com a construção, em 1961, do Muro de Berlim, que dividiu a fisicamente a cidade (e boa parte do mundo) em zonas de influência capitalista e comunista. Em 1962, a tensão entre as duas potências chegou à beira do conflito aberto quando os EUA descobriram a construção de bases militares soviéticas em Cuba.


O episódio conhecido como crise dos mísseis terminou com um acordo, mediado pelas Nações Unidas, em que a URSS se compreteu a retirar da ilha todas as suas armas e os Estados Unidos a acabar com o embargo à Cuba – medida que não foi cumprida até hoje.


A fim de tentar conter a corrida armamentista, Estados Unidos, União Soviética e Grã-Bretanha assinaram em 1963 um tratado de não-proliferação de armas nucleares. O jogo político começou a ganhar novos contornos em 1968 e 1969 com ideias de abertura política na Tchecoslováquia e na Alemanha.



Distenção

Em 1973, as duas potências concordaram em desacelerar a corrida armamentista. O acordo é selado simbolicamente com um encontro no espaço entre as aeronaves Apollo 18 e Soyouz 1, na primeira missão conjunta entre os dois países, em 1975.


Quatro anos mais tarde, no entanto, os ânimos voltaram a se exaltar com a invasão soviética ao Afeganistão. Na batalha contra a ocupação soviética, os EUA apoiam a resistência, que mais tarde dariam origem ao Talibã.



Perestroika e Glasnost

Mikhail Gorbachev chegou ao poder em 1985 pregando a necessidade de reformar a URSS. Ficaram conhecidas as duas principais medidas lançadas pelo líder soviético: a Perestroika, plano de reforma econômica que previa a diminuição do orçamento militar -e a conseqüente retirada do Afeganistão- e a Glasnost, reforma política que garante liberdade religiosa e transparência.


Gorbachev também se encontraria com o então presidente americano Ronald Regan, em 1986. Os dois assinariam, no ano seguinte, um tratado para eliminação de armas e desativação de grande parte das ogivas nucleares.



O ano de 1989 foi marcado por uma série de revoltas populares pedindo o fim do regime socialista, que se espalham por Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Bulgária, Romênia. O processo culmina com a queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro, que para muitos marcou o fim da Guerra Fria.



Veja cobertura especial sobre os 20 anos da queda do Muro de Berlim


A dissolução da União Soviética no fim dos anos 80 e início dos 90, no entanto, tornou sem sentido o mundo polarizado. Embora, 13 anos depois, Estados Unidos e Rússia ainda continuem a negociar acordos para garantir a redução das armas nucleares dos dois países.

17/08/2009

Os dez princípios para a inovação social e formação de redes sociais

os dez princípios para a inovação social e formação de redes sociais. São eles:

Defina a causa, a missão, quais os resultados que se pretende e como dimensionar esses resultados. “É preciso usar a mente e buscar resultados mensuráveis”, explicou.
Busque o comprometimento local. Identifique quem são as pessoas que podem se comprometer localmente com a causa.
Converse com essas pessoas, dialogue com elas até alcançar o consenso. A partir do consenso o interesse se intensifica.
Neste ponto entram as empresas. As empresas podem usar a mente, o raciocínio para projetar sistemas que permitam tornar um produto ou serviço acessível, na base, por exemplo, de 1 dólar. “Não ter dinheiro é uma situação que força a inovação”, disse Charan.
Projete um sistema. Mas é preciso ter em mente que o sistema só vai funcionar se as pessoas executoras concordarem com esse sistema. Caso contrário, é preciso voltar ao diálogo.
Identifique líderes na comunidade. Pessoas de paixão e confiáveis. Segundo Charan, nenhum grupo de pessoas ou comunidade alcança a sustentabilidade sem um líder, seja ele eleito, indicado informalmente ou escolhido.
Não busque a publicidade e o elogio pelo sucesso alcançado. “A satisfação pessoal não é medida pela publicidade da sua iniciativa”, disse.
Mantenha reuniões periódicas com pessoas de empresas, universidades, autoridades públicas. Estabeleça prioridades, mas não queira nunca abraçar o mundo. Escolha três prioridades, com base na sua causa, nos resultados e mensuração dos resultados. Use palavras exatas, evitando conceitos e definições genéricas.
Busque a criatividade do grupo envolvido no trabalho. É preciso identificar quais os recursos, em termos de criatividade, com que se pode contar para o desenvolvimento das ações.
Tenha em mente que a vida é a felicidade. Seja feliz e, mais importante, faça outras pessoas felizes.
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MinC promove ciclo de conferências sobre a experiência do pensamento

MinC promove ciclo de conferências sobre a experiência do pensamento

O Ministério da Cultura (MinC) promove com patrocínio da Petrobras, a partir de hoje, 17/8, o 3º Ciclo de Conferências do Programa Cultura e Pensamento, em torno do tema "Mutações: a experiência do pensamento". Estão programadas conferências nas cidades do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte (entre 17/8 e 9/10) e Brasília (entre 31/8 e 8/10). As inscrições podem ser feitas na Academia Brasileira de Letras (para as conferências no Rio). As conferências do Rio de Janeiro serão transmitidas ao vivo pela internet. Um resumo sobre o conteúdo das conferências está em nota do MinC sobre a iniciativa

31/03/2009

OIT e Banco Mundial recomendam aumento de gastos sociais como resposta à crise

OIT e Banco Mundial recomendam aumento de gastos sociais como resposta à crise

Em relatório divulgado na última semana, a Organização Mundial do Trabalho (OIT) afirmou que a ampliação do Programa Bolsa-Família pode contribuir para reduzir os impactos da crise econômica mundial no Brasil. Em sintonia com a apreensão manifestada por autoridades internacionais acerca dos impactos sociais da crise econômica na América Latina, o relatório recomenda que os governos da região aumentem gastos sociais como forma de estímulo econômico para a superação da crise.

Os indicadores sociais delineados até o instante são preocupantes: segundo estudo do Banco Mundial, em 2009, a crise econômica vai aumentar em 6 milhões o número de indivíduos considerados pobres na América Latina. Segundo dados da OIT, a crise econômica poderá implicar aumento para 7,1% na taxa global de desemprego em 2009, comparativamente às taxas de 6% e 5,7% registradas nos dois anos anteriores. Caso as projeções sejam confirmadas, o número de desempregados chegaria a quase 230 milhões, dentre os quais 23 milhões seriam da América Latina.

Diante deste contexto, o diretor de política econômica e programas de redução da pobreza na América Latina e no Caribe do Banco Mundial, Marcelo Giugale, sustenta que a resposta a ser dada pelos países da região não pode ser a mesma dos países desenvolvidos (PDs). Para ele, deve haver especial preocupação com os “custos sociais irreversíveis da crise”, como a má nutrição, o abandono escolar e o fraco atendimento médico. Mesmo ressaltando que os países deverão redobrar o cuidado para que os recentes avanços macroeconômicos – como o controle da inflação e o equilíbrio das contas públicas – não sejam perdidos, Giugale enfatiza que o estímulo à recuperação econômica não poderá se restringir aos âmbitos fiscal e monetário: deve cobrir também o social.

Giugale sustenta que os custos dos programas sociais são relativamente baixos, em relação aos benefícios que proporcionam. Enquanto os governos latino-americanos gastam entre 5 a 10% do PIB em subsídios, programas como o Bolsa Família respondem por apenas 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB). Tais gastos trariam, contudo, benefícios a toda a economia: “Os pobres têm propensão a consumir mais do que os ricos porque têm necessidades insatisfeitas. O impacto na demanda agregada de focalizar gastos públicos nos pobres é maior e mais rápido”.

Nesse mesmo sentido, o relatório elaborado pela OIT – intitulado Bolsa Família no Brasil: análise, conceito e impactos – constata que o dinheiro recebido pelas famílias contempladas é utilizado principalmente na compra de bens de primeira necessidade, como alimentos, roupas e material escolar, de modo que o programa exerceria efeito direto sobre a demanda destes bens. A OIT entende que o Bolsa Família desempenha importante papel anticíclico, na medida em que promove o comércio e o desenvolvimento locais.

Para além de seus efeitos econômicos, a OIT estima que 25% da redução da pobreza extrema no Brasil podem ser atribuídos ao Bolsa Família, além de benefícios sociais indiretos como a queda da mortalidade e desnutrição infantis, a emancipação da mulher e a diminuição da violência conjugal.

17/02/2009

Resumo de Esaú e Jacó - Machado de Assis

Resumo de Esaú e Jacó - Machado de Assis

Publicado em 1904, Esaú e Jacó é o penúltimo romance de Machado de Assis.

O título é extraído da Bíblia, remetendo-nos ao Gênesis: à história de Rebeca, que privilegia o filho Jacó, em detrimento do outro filho, Esaú, fazendo-os inimigos irreconciliáveis. A inimizade dos gêmeos Pedro e Paulo, do romance de Machado, não tem causa explícita, daí a denominação de romance "Ab Ovo" (desde o ovo).

É o romance da ambigüidade, narrado em 3ª pessoa, pelo Conselheiro Aires. Pedro e Paulo seriam "os dois lados da verdade". Filhos gêmeos de Natividade e Agostinho Santos, à medida que vão crescendo, os irmãos começam a definir seus temperamentos diversos: são rivais em tudo. Paulo é impulsivo, arrebatado, Pedro é dissimulado e conservador - o que vem a ser motivo de brigas entre os dois. Já adultos, a causa principal de suas divergências passa a ser de ordem política - Paulo é republicano e Pedro, monarquista. Estamos em plena época da Proclamação da República, quando decorre a ação do romance.

Para apaziguar a discórdia fraterna, de nada valem os conselhos de Aires, amigo de Natividade, nem as previsões de discórdia e grandeza feitas por uma adivinha (A Cabocla do Castelo), quando os gêmeos tinham ainda um ano.

Até em seus amores, os gêmeos são competitivos. Flora, a moça de quem ambos gostam, se entretém com um e outro, sem se decidir por nenhum dos dois: a moça é retraída, modesta, e seu temperamento avesso a festas e alegrias, isso levou o Conselheiro Aires a dizer que ela era "inexplicável". O conselheiro Aires é mais um grande personagem da galeria machadiana, que reaparecerá como memorialista no próximo e último romance do autor: velho diplomata aposentado, de hábitos discretos e gosto requintado, amante de citações eruditas, muitas vezes interpreta o pensamento do próprio romancista.

As divergências entre os irmãos continuam, muito embora, com a morte de Flora, tenham jurado junto a seu túmulo uma reconciliação perpétua. A morte da moça, porém, une temporariamente os gêmeos, mais tarde, também a morte de Natividade cria uma trégua entre ambos, mas logo se lançam às disputas.

Continuam a se desentender, agora em plena tribuna, depois que ambos se elegeram deputados por dois partidos diferentes, absolutamente irreconciliáveis: cumpre-se, portanto, a previsão da adivinha: ambos seriam grandes, mas inimigos.



Comentário e estudo:



100 ANOS DE ESAÚ E JACÓ
O penúltimo romance de Machado de Assis reflete com maestria sua ambígua posição política

por Fabio Guimenes (guimenes@yahoo.com.br)

Joaquim José Maria Machado de Assis (1839-1908) é unanimemente celebrado como um dos maiores escritores brasileiros. Nenhum outro reuniu um interesse tão generalizado em torno de sua vida e obra. Este prestígio, que outros escritores mais populares não conseguiram alcançar, o situa à parte, representando por si só um momento incomparável na sucessão das escolas literárias. Destoante pelo pensamento e pelo estilo da tradição literária, Machado de Assis marca seu próprio estilo, fazendo crer ao seu leitor que se colocava face aos acontecimentos históricos que presenciou como simples espectador.

“As décadas situadas em torno da transição dos séculos XIX e XX (...)” diz Nicolau Svcenko, em seu livro Literatura como Missão - Tensões Sociais e Criação Cultural na Primeira República , “(...) assinalavam mudanças drásticas em todos os setores da vida brasileira. Mudanças que foram registradas pela literatura, mas, sobretudo mudanças que se transformaram em literatura.”

Nos primeiros anos da República, a intranqüilidade social e política abatia a todos os que tinham esperança no novo regime. Numa época em que os Realistas se desdobravam em detalhes grosseiros, Machado preferia sugerir a declarar. Olhando a natureza como um míope, ele, em compensação, devassa e penetra a alma dos homens, para aí sim, exibi-la em opulência de detalhes. O estudo da obra machadiana ainda nos coloca uma série de obstáculos. Como diz José Barreto Filho em seu livro Introdução à obra de Machado de Assis , “Machado nos quis dizer um segredo, mas o fêz com tanta reserva que não pôde formular talvez, nem para si mesmo”.

Definir em que consiste este universo tem sido tema de artigos, livros e pesquisas, cada qual trazendo sua interpretação. O objetivo deste ensaio é mostrar como Machado de Assis tornou-se um excelente retratista de seu tempo. Através de sua literatura, pode-se conhecer o que de mais característico havia no Rio de Janeiro. Machado não escreveu a História dos Subúrbios, prometida em Dom Casmurro através do personagem-narrador, mas, em compensação, compôs, através de sua visão, a história política e social de toda a cidade, quando esta exercia ainda segundo Sevcenko “papel preponderante, senão hegemônico, como capital cultural, além de ser o centro das decisões políticas e administrativas”.

Em sua dissertação de mestrado, defendida em 1985 na UFF intitulada A República do Pica-pau Amarelo , o Professor Doutor André Luiz Vieira de Campos diz que “mais do que simples testemunho da sociedade, a literatura pode revelar seus conflitos dissimulados e desejos não realizados”. Não há produção humana desvinculada da realidade de seu tempo; por isso, a literatura sempre foi um importante instrumento na formação da mentalidade das elites do país.

Esaú e Jacó , escrito em 1904, foi o penúltimo romance de Machado de Assis, trazendo uma particularidade: reflete a posição política de um homem tido como alheio aos movimentos de tal natureza. O escritor retoma, no título, a referência bíblica — típica de sua ficção — remetendo a história de Pedro e Paulo ao episódio do Antigo Testamento ( Gênesis, capítulos 27 a 33) . Os gêmeos nos trazem reflexões políticas que, certamente, ocupavam o imaginário da época, além de Flora, apaixonada pelos irmãos, que caracteriza a indecisão, marca registrada da obra machadiana, que nada afirma sem, logo a seguir, meter a dúvida de permeio. Machado de Assis utiliza as duas personagens — Pedro e Paulo — para, em cada uma, incorporar seu espírito hesitante e em constante luta íntima na grande questão que nos traz esta obra: Monarquia X República.

A grande preocupação dos estudiosos da obra machadiana é situar suas tendências políticas ao lado da República contra o Império. Mas como diz H. Pereira da Silva em seu livro Sobre os Romances de Machado de Assis , “determinar-lhe o comportamento político só mesmo pelo método dedutivo. E deduzi-lo partidário da República implica em sofismar mais do que em deduzir”.

“Há nos mais graves acontecimentos, muitos pormenores que se perdem, outros que a imaginação inventa para suprimir os perdidos, e nem por isso a história morre”, prega um trecho de Esaú e Jacó . O livro possui uma particularidade: refletir a posição política de um homem tido como alheio a movimentos de tal natureza. Acusado de indiferente, frio e inteiramente desligado das paixões políticas, Machado de Assis, nesta obra, discute e analisa uma das mais importantes épocas da política brasileira.

Vê-se que a obra se ocupa do período de 1855 a 1890, época cuja importância é fundamental na evolução da sociedade brasileira. Neste período de nossa história, temos a economia do café, extinção do trabalho escravo e o emprego da mão-de-obra livre. Há grandes transformações urbanas e a população cresce a cada dia. O autor procura registrar a transição Império/República, o que dá ao texto o nível histórico.

Uma curiosidade deste livro é que Machado de Assis não se coloca como autor da obra. Logo em seu início, há uma advertência onde diz que os manuscritos que deram origem ao livro foram encontrados após a morte do Conselheiro Aires. Machado, então, monta a sua narrativa a partir dos manuscritos do Conselheiro.

A referência bíblica é típica da ficção machadiana e aparece em todos os livros anteriores a este. Através dela, o autor infunde um caráter de parábola à narrativa, dimensionando-a em curto grau de universalidade. A obra faz menção a um episódio, como já foi dito, do Antigo Testamento: como Rebeca era estéril, Isaac implorou a Jeová que lhe concedesse filhos. Concebendo gêmeos e sentindo-os lutar em seu útero, ela interroga a Deus que responde: “duas nações há no teu ventre, dois povos nascidos de ti, que se dividirão; um povo será mais forte do que o outro e o mais velho servirá ao mais moço”. Esta referência fixa, desde já, o nível mítico do discurso. A ação que transcorrerá opondo Pedro e Paulo reporta-se a uma realidade arquetípica, inerente à própria natureza humana e diz respeito às suas origens.

Também é importante notar como Machado vai localizando objetivamente a ação num cenário específico da vida urbana. O autor, como de costume, faz menção minuciosa de lugares, hábitos, profissões e convenções. Revela-se, assim, uma fotografia bastante nítida do código social da burguesia brasileira na segunda metade do século XIX, sendo possível, até mesmo, reconstituí-la através do texto machadiano.

Retomando a análise de Pedro e Paulo, é através destas duas personagens que nos chegam as pulsações políticas do autor. Para resumir o nível de confronto dos irmãos, digo apenas uma coisa: se perguntados sobre a data de seus aniversários — 7 de abril de 1870 — Paulo diria: “Nasci no aniversário do dia em que Pedr oI caiu do trono”. E Pedro: “Nasci no aniversário do dia em que sua Majestade subiu ao trono”.

Flora, personagem dúbia, seria o amor de ambos. Ela não se decide e eles que sempre divergiam concordam com o fato de que nenhuma outra mulher teria as qualidades de Flora e disputam-na. Pedro, Paulo e Flora habitam esta região do mundo machadiano, que são os mais de cem capítulos desta obra, com o objetivo de contrastarem idéias do autor.

Na realidade, os dois não são mais que um, se temos que distinguí-los simbolicamente como meio de expressão de um conjunto de idéias e não, meramente, como personagens. Machado serve-se, digamos assim, dos irmãos para em cada um incorporar o seu espírito hesitante e em constante luta íntima. A segunda metade do século XIX, como disse, rica historicamente, não o seduziria a ponto de fazê-lo tomar parte ativa nos movimentos que culminaram com a abolição da escravatura e a proclamação da República, entre outros.

Havia em Machado de Assis — consumido lentamente pela epilepsia — uma preocupação maior que todas: a de firmar sua personalidade antes que o “grande mal” o vencesse. Firmou, mas foi vencido por outra doença: o câncer. Esaú e Jacó , por certo, foi interrompido mais de uma vez pelas crises e ataques que o prostravam ao leito por dias seguidos.

A proclamação da República merece, na narrativa, mais do que a habitual atenção de Machado de Assis dispensada a um acontecimento político. Trata-se do episódio da tabuleta; ele, melhor do que ninguém, define a exata posição do autor e do povo diante do fato. Custódio, dono de uma confeitaria no Catete, vê-se em sérios problemas com a queda da monarquia e “se pudesse liquidava a confeitaria, afinal que tinha ele com política? Era um simples fabricante e vendedor de doces, estimado, afreguesado, respeitado e principalmente respeitador da ordem pública…”.

Este episódio inicia-se no capítulo 49 e só se completa no capítulo 63. Talvez em nenhuma outra passagem da obra de Machado de Assis a questão das relações entre credos políticos e o individualismo burguês tenha recebido tratamento tão irônico. O temor e a avareza qualificam o conceito de propriedade, expressando-se na busca de um título “simultaneamente definitivo, popular e imparcial” que o defenda em qualquer circunstância. Este diálogo se dá entre Custódio e o Conselheiro Aires. Tudo começa quando Custódio, dias antes da proclamação da República, manda pintar uma tabuleta que dizia “Confeitaria do Império”. Passo, então, após este introdutório que, certamente, despertou a curiosidade dos que não o conhecem, a transcrevê-lo.

“— Mas o que é que há? Perguntou Aires.

— A república está proclamada.

— Já há governo?

— Penso que já; mas diga-me V.Ex.ª: ouviu alguém acusar-me jamais de atacar o governo? Ninguém. Entretanto, uma fatalidade! Venha em meu socorro, Excelentíssimo. Ajude-me a sair deste embaraço. A tabuleta está pronta, o nome todo pintado. —‘Confeitaria do Império', à tinta é viva e bonita. O pintor teima em que lhe pague o trabalho, para então fazer outro. Eu, se a obra não estivesse acabada, mudava de título, por mais que me custasse, mas hei de perder o dinheiro que gastei? V.Ex.ª crê que, se ficar ‘Império', venham quebrar-me as vidraças?

— Isso não sei.

— Pessoalmente, não há motivo; é o nome da casa, nome de trinta anos, ninguém a conhece de outro modo…

— Mas pode por ‘Confeitaria da República'…

— Lembrou-me isso a caminho, mas também me lembrou que, se daqui a um ou dois meses, houver nova reviravolta, fico no ponto em que estou hoje e perco outra vez o dinheiro.

— Tem razão… sente-se.

— Estou bem.

— Sente-se e fume um charuto.

Custódio recusou o charuto, não fumava. Aceitou a cadeira. Estava no gabinete de trabalho, em que algumas curiosidades lhe chamariam a atenção, se não fosse o atordoamento do espírito. Continuou a implorar o socorro do vizinho. S. Exª. com a grande inteligência que Deus lhe dera, podia salvá-lo. Aires propôs-lhe um meio-termo, um título que iria com ambas as hipóteses — ‘Confeitaria do Governo'.

— Tanto serve para um regímen como para outro.

— Não digo que não, e, a não ser a despesa perdida… Há, porém, uma razão contra. V.Exª. sabe que nenhum governo deixa de ter oposição. As oposições, quando descerem à rua, podem implicar comigo, imaginar que as desafio, e quebrarem a tabuleta; entretanto o que eu procuro é o respeito de todos.

Aires compreendeu bem que o terror ia com a avareza. Certo, o vizinho não queria barulhos à porta, nem malquerenças gratuitas, nem ódios de quem quer que fosse; mas, não o afligia menos a despesa que teria de fazer de quando em quando, se não achasse um título definitivo, popular e imparcial. Perdendo o que tinha, já perdia a celebridade, além de perder a pintura e pagar mais dinheiro. Ninguém lhe compraria uma tabuleta condenada. Já era muito ter o nome e o título no Almanaque de Laemmert, onde podia lê-lo algum abelhudo e ir com ou outros, puni-lo do que estava impresso desde o princípio do ano…

— Isso não, interrompeu Aires; o senhor não há de recolher a edição de um almanaque.

E depois de alguns instantes:

— Olhe, dou-lhe uma idéia, que pode ser aproveitada, e, se não a achar boa, tenho outra à mão, e será a última. Mas eu creio que qualquer delas serve. Deixe a tabuleta pintada como está, e à direita, na ponta, por baixo do título, mande escrever estas palavras que explicam o título: ‘Fundada em 1860'. Não foi em 1860 que abriu a casa?

— Foi, respondeu Custódio.

— Pois…

Custódio refletia. Não se lhe podia ler sim nem não; atônito, a boca entreaberta, não olhava para o diplomata, nem para o chão, nem para as paredes ou móveis, mas para o ar. Como Aires insistisse, ele acordou e confessou que a idéia era boa. Realmente, mantinha o título e tirava-lhe o sedicioso, que crescia com o fresco da pintura. Entretanto, a outra idéia podia ser igual ou melhor, e quisera comparar as duas.

— A outra idéia não tem a vantagem de pôr a data à fundação da casa, tem só a de definir título, que fica sendo o mesmo, de uma maneira alheia ao regímen. Deixe-lhe estar a palavra império e acrescente-lhe embaixo, ao centro estas duas, que não precisam ser graúdas: das leis. Olhe, assim, concluiu Aires, sentando-se à secretária, e escrevendo em uma tira de papel que dizia.

Custódio leu, releu e achou que idéia era útil; sim, não lhe parecia má. Só lhe viu um defeito: sendo as letras debaixo menores, podiam não ser lidas tão depressa e claramente como as de cima, e estas é que se meteriam pelos olhos ao que passasse. Daí a que algum político ou sequer inimigo pessoal não entende logo, e… A primeira idéia, bem considerada, tinha o mesmo mal, e ainda este outro: pareceria que o confeiteiro, marcando a data da fundação fazia timbre em ser antigo. Quem sabe que não era pior que nada?

— Tudo é pior que nada.

— Procuremos.

Aires achou outro título, o nome da rua, ‘Confeitaria do Catete', sem advertir que havendo outra confeitaria na mesma rua, era atribuir exclusivamente a Custódio a designação local. Quando o vizinho lhe fez tal ponderação, Aires achou-a justa, e gostou de ver a delicadeza de sentimentos do homem; mas logo depois que o que fez falar o Custódio foi a idéia de que este título ficava comum às duas casas. Muita gente não atinaria com o título e compraria na primeira que lhe ficasse à mão, de maneira que só ele faria as despesas da pintura, e ainda por cima perdia a freguesia. Ao perceber isso, Aires não admirou menos a sagacidade de um homem que, em meio a tantas tribulações, contava os maus frutos de um equívoco. Disse-lhe então que o melhor seria pagar a despesa feita e não por nada, a não ser que preferisse seu próprio nome: ‘Confeitaria do Custódio'. Muita gente certamente lhe não conhecia a casa por outra designação. Um nome, o próprio nome do dono, não tinha significação política ou figuração histórica, ódio nem amor, nada que chamasse a atenção dos dois regimens, e conseguintemente que pusesse em perigo os seus pastéis de Santa Clara, menos ainda a vida do proprietário e dos empregados. Por que é que não adotava esse alvitre? Gastava alguma coisa com a troca de uma palavra por outra, ‘Custódio' em vez de ‘Império', mas as revoluções trazem sempre despesas.

— Sim, vou pensar, excelentíssimo. Talvez convenha esperar um ou dois dias, a ver em que param as modas, disse Custódio agradecendo.

Curvou-se, recuou e saiu. Aires foi à janela para vê-lo atravessar a rua. Imaginou que ele levaria da casa do ministro aposentado em lustre particular que faria esquecer por instantes a crise da tabuleta. Nem tudo são despesas na vida, e a glória das relações podia amaciar as agruras deste mundo. Não acertou desta vez. Custódio atravessou a rua, sem parar nem olhar para trás, e enfiou pela confeitaria dentro com todo sem desespero”.

Não entram aí, por transferência, certos elementos da biografia do autor? Como o “fabricante e vendedor de doces”, “afinal, o que tinha ele a ver com política?” “Respeitado” e “respeitador da ordem pública”; quem o foi mais Machado de Assis?

Situar as tendências de Machado de Assis relativas à política, colocando-o ao lado da República e contra o Império, tem sido, como dissemos, a maior preocupação dos machadianos. A verdade, porém, é que o romancista nutria por D.Pedro II e a Família Imperial grande estima. Ainda jovem, dedicou nas colunas de A Marmota , um soneto ao Imperador.



“Nesse trono, Senhor, que foi erguido

por um povo já livre, e sustentado

por ti, que alimentando as leis, o estado

hás na história teu nome engrandecido.



Neste trono, Senhor, onde esculpido

tem a destra do eterno um nome amado

vês nascer este dia abrilhantado

sorrindo a ti, monarca esclarecido!



Eu te saúdo neste dia imenso!

Da clemência, justiça sã, verdade

queimando as piras perfumoso incenso!



Elevando aos umbraes da imensidade

terá fama, respeito e amor intenso!

Um nome transmitido à eternidade!”

Rio de Janeiro, 02 de dezembro de 1855
Machado de Assis



Depois disso, por diversas vezes se reporta com incontida admiração ao Monarca retratado pelos adeptos do novo regime. A crença de que os monarquistas eram retrógrados desapareceu com os reacionários da república. Sem fazer afirmações, ou melhor, fazendo-as para, ao mesmo tempo, invalidá-las com um ponto de interrogação, Machado de Assis não se deixa apanhar facilmente.

Voltemos a Flora. Ela oscila como um pêndulo entre o amor de Pedro e Paulo e, até a morte, hesita. Chega a ter alucinações. Ouve vozes. E, fundindo-as em apenas uma, de tão iguais que eram, transforma os gêmeos em uma única pessoa.

O drama de Flora consiste em não se decidir, tal era a atração pelos gêmeos. Machado de Assis resume os anseios da moça assim: “Era um espetáculo misterioso, vago, obscuro em que as figuras visíveis se faziam impalpáveis, o dobrado ficava único, o único dobrado, uma fusão, uma confusão, uma difusão”.

A complexidade dos sentimentos que fazem de Flora um símbolo da indecisão de Machado de Assis põe a descoberto uma constante no espírito titubeante do seu criador. Tomar uma decisão constituiu, sem a menor dúvida, algo penoso, quase uma transgressão consigo mesma, para quem, de preferência, acreditava nas coisas boas e más, sem revoltas violentas ou medidas drásticas. A rebeldia machadiana, como a de Voltaire, se manifesta sutilmente nos ditos satíricos, na ironizante e particular maneira de mostrar, nos lábios, um sorriso de desdém e, nos olhos, ocultar as lágrimas de compaixão pelas aspirações humanas. Interrogações seguidas de resposta cética e imediata como esta: “Vives? Não quero outro flagelo”. Expõe feridas e cicatrizes íntimas. Em Machado de Assis, tão introvertido, o humor seria uma válvula de escape em textos carregados de impressões refinadas pela sua sensibilidade.

Esaú e Jacó , pelos motivos expostos, poderia intitular-se Indecisão . As personagens, mesmo as secundárias, não possuem caracteres positivos estáveis; atravessam a obra como criaturas que dão a impressão de incerteza ao primeiro olhar. A figura de Flora não se fixa na memória do leitor sem deixar um rastro de dúvidas quanto à sua preferência por um dos gêmeos. Termina sem chegar a separar Pedro e Paulo, fundindo-os num só, tal como acontecia em suas alucinações.

Na forma, Esaú e Jacó , como expressão literária, é uma obra-prima pouco lembrada pelos críticos. Machado de Assis atinge uma superioridade estilística só mesmo inferior à que conquista em Memorial de Aires . As idéias de Machado são como as moedas: possuem duas faces — cara e coroa —; o seu valor, porém, torna-as únicas

01/10/2008

PAZ E GUERRA No Oriente Medio - David Fromkin- RESENA

"O Oriente Médio, tal como o conhecemos, é uma criação recentíssima. Resultou de decisões tomadas pelos países vitoriosos na Primeira Guerra Mundial, especialmente Inglaterra e França, que desagregaram o Império Otomano (1299-1922), a única potência muçulmana que desafiou a hegemonia européia no mundo moderno.

Novos países, com os respectivos governos, foram fabricados pela Europa. A Inglaterra inventou o Iraque e a Jordânia, traçou em um mapa as fronteiras entre a Arábia Saudita e o Kwait, transformou o Egito em protetorado e deu abrigo, na Palestina, a um Lar Nacional Judaico, precursor do Estado de Israel. A França decidiu a atual configuração da Síria e do Líbano. A maior parte do mundo árabe foi dividida, basicamente, entre duas famílias, que deveriam inaugurar dinastias. A Turquia – centro do antigo império – conquistou com muito sangue o direito à existência, mas os curdos foram deixados sem Estado próprio. A Pérsia, atual Irã, foi humilhada e retalhada.

Há muito tempo os europeus desejavam dominar o Oriente Médio. A ousadia imperial na região, porém, começou tarde demais. A própria Europa estava esgotada pela guerra, incapaz de sustentar tão grande empreitada, desafiada pelos Estados Unidos, de Wilson, e pela União Soviética, de Lenin. Já era incapaz de controlar regiões tão extensas, que abrigam civilizações orgulhosas, com crenças próprias e enraizadas. Na década de 1920, até mesmo para um número crescente de europeus, o velho imperialismo já parecia fora de lugar.

As mudanças, trazidas de fora para dentro, não geraram uma configuração estável. Na região, permanecem pulsantes não apenas disputas de fronteiras ou rivalidades econômicas, mas questões muito mais fundamentais, como o próprio direito à existência das entidades políticas que a compõem. Guerras de sobrevivência nacional ainda estão na ordem do dia. Não há acordo, sequer, sobre as regras do jogo. A permanência do atual arranjo regional é incerta. A própria crença moderna na legitimidade de Estados nacionais leigos, que para nós parece ser natural, é um credo alienígena em sociedades que, há mais de mil anos, se organizam em torno de uma Lei Sagrada que governa toda a vida, inclusive a política.

O professor David Fromkin, da Universidade de Boston (EUA), reconstitui neste livro a história da criação do Oriente Médio moderno, depois de mais de 25 anos de estudos. “Em 1979, quando iniciei minha pesquisa, parecia que tínhamos chegado a um ponto em que, por fim, seria possível contar a verdadeira história do que acontecera. Abriram-se arquivos de documentos oficiais e papéis particulares que eram secretos. Por isso este livro existe.”

25/05/2008

Celso Furtado e o Brasil - Maria da Conceição Tavares

Este livro é composto de ensaios escritos para o seminário Celso Furtado e o Brasil, realizado pela Fundação Perseu Abramo, pela Pontifiçia Universidade Católica de Minas Gerais e pelo Conselho Regional de Economia de Minas Gerais, em Belo Horizonte no mês de novembro de 1999.. Os temas apresentados e debatidos tomaram como ponto de partida alguns aspectos da obra do mestre Furtado que foram considerados importantes para esclarecer os problemas contemporâneos do país e retomados com o propósito de aprofundar nossa reflexão comum. A obra de Celso Furtado pode ser caracterizada por sua preocupação recorrente com o tema da construção da nação diante das diversas formas de dominação internacional e do pacto interno de dominação. Coerentemente, a luta incansável pela verdadeira emancipação nacional tem sido a marca de sua vida como pensador e homem público. Em suas obras mais recentes – que resumem o esforço intelectual de uma vida altamente produtiva – reflete novamente sobre o que considera a fonte primeira da dominação mundial – o controle das inovações tecnológicas – e aponta como elemento central de resistência e de possível superação da fratura social a própria formação e o desenvolvimento de uma cultura nacional

Celso Furtado não desiste nunca da idéia da necessidade de um projeto nacional capaz de animar a reconstrução do Brasil, mesmo quando a atual conjuntura de desmantelamento do país parece deslocar os resultados desse processo para um horizonte cada vez mais longínquo. No Manifesto da Frente de Esquerda Em defesa do Brasil, da democracia e do trabalho (1999) – que ele assinou, como a maioria dos intelectuais que ainda continuam na luta de resistência às políticas neoliberais –, a epígrafe é uma frase sua, esclarecedora do estado de espírito do mestre: “Em nenhum momento da nossa história foi tão grande a distância entre o que somos e o que esperávamos ser”. Esta mágoa, que compartilho com paixão, decorre de nosso sentimento comum quanto à situação da nação em matéria de destruição das forças produtivas e da própria desorganização da sociedade.


“Aos intelectuais cabe-lhes aprofundar a percepção da realidade social para evitar que se alastrem as manchas de irracionalidade que alimentam o aventureirismo político; cabe-lhes projetar luz sobre os desvãos da história onde se ocultam os crimes cometidos pelos que abusam do poder; cabe-lhes auscultar e traduzir as ansiedades e aspirações das forças sociais ainda sem meios próprios de expressão.”

Celso Furtado

28/04/2008

Resenha Paz e Guerra entre as Nações - Raymond Aron

Em Paz e Guerra entre as Nações (1962), Aron discute os níveis conceituais da compreensão do campo das relações internacionais. Aponta que não cabe uma analogia nem com a economia, nem com o futebol. A economia tem como problema a escassez e coloca escolhas sobre os meios de superá-la. O futebol tem regras, juiz, o preciso objetivo dos times de ganhar a partida, que é travada no interior de um campo delimitado, com número fixo de participantes. O campo das relações internacionais se desdobra sobre a sombra da guerra - para Aron, na sua reflexão sobre Clausewitz (1976), um camaleão que assume sempre novas formas. Além do mais, e em contraste com o futebol e a economia, em função da diversidade dos objetivos, dos meios e da multiplicidade dos atores e dos contextos, o objeto das relações internacionais não é unívoco. Daí - e este é o ponto central da visão de Aron - a relativa indeterminação que caracteriza o campo.

Aron estuda a regularidade sociológica dos fatores que condicionam a condução de uma política externa: espaço, número, recursos, nações e regimes. O que ele realça, com originalidade, é que estes fatores não são mobilizados em função de um objetivo unívoco. É uma característica das relações internacionais a pluralidade dinâmica dos objetivos concretos das políticas externas dos Estados que compõem o sistema internacional. Entre estes objetivos figuram: segurança, desenvolvimento e bem-estar, prestígio, afirmação de idéias. É isto que faz do conceito do interesse nacional um conceito plurívoco e por vezes esquivo.

Assim, por exemplo, obter o prestígio de um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU é primeira prioridade da diplomacia do governo Lula, não o foi no governo FHC. A mudança dos regimes políticos de outros países é prioridade no governo Bush, não o foi no governo Clinton. A afirmação regional de uma revolução bolivariana é objetivo maior do governo Chávez, não foi item de outros governos da Venezuela. É por este motivo que a racionalidade da conduta da política externa é circunscrita pela escolha de certas premissas que norteiam o seu processo decisório.

É nesta moldura que Aron explora conceitos dos quais esquematicamente se pode extrair a lógica durável das relações interestatais, caracterizada pela distribuição individual, mas desigual do poder entre os Estados. Entre eles, os provenientes dos equilíbrios/desequilíbrios derivados da ordenação estratificada do poder que podem levar a sistemas multipolares (como o do concerto europeu) ou bipolares (como o da guerra fria) e hoje, diria eu, o das tensões da unipolaridade.

Aron também realça a distinção entre sistemas homogêneos, nos quais prevalece o mútuo reconhecimento dos atores, e os heterogêneos (como o da guerra fria), nos quais isso não ocorreu. Aron estudou o confronto capitalismo-comunismo. Hoje, na sua linha, poder-se-ia discutir como os fundamentalismos vêm, por obra do não-reconhecimento mútuo, trazendo uma nova heterogeneidade ao planeta, que é um dos dados do fenômeno terrorista contemporâneo.

Aron, como observador participante, conclui Paz e Guerra com uma praxeologia na qual estuda as antinomias com que lidam os responsáveis pela condução da política externa. Estes se confrontam com o que denomina o problema maquiavélico e o kantiano. O primeiro é o do realismo dos meios legítimos da condução da política externa, que, no limite, comporta o uso de força. O segundo é o da busca da "paz perpétua" e de um princípio regulador da humanidade que substitua a "moral do combate". Na interação dos dois, Aron desenvolve uma ética de prudência e de equilíbrio entre excessos. Nesta não cabem profecias, mas há espaço para o dever da esperança.

22/04/2008

Resenha - GLOBALIZAÇAO, DEMOCRACIA E TERRORISMO Hobsbawn

Coletânea de dez palestras e conferências em que faz um balanço dos principais emas da política internacional dos nossos dias. Embora trate de um amplo conjunto de assuntos - imperialismo, nacionalismo e hegemonia, guerra e paz, ordem pública e disponibilidade de armas, o poder da mídia, mercado e democracia, além de futebol e cultura contemporânea -, a obra tem forte unidade temática, centrada na análise da situação mundial no início do novo milênio e dos problemas mais agudos que nos confrontam.
Eric Hobsbawm, analisa as premissas que irão alterar o resultado final de equilíbrio de forças entre potências políticas e consequentes jogos de poder num conjunto de reflexões e ensaios escritos entre 2000 e 2006. Examinando a globalização, a causa da democracia passando pela ameaça do terrorismo, o historiador debruça-se sobre a guerra e paz dos tempos modernos, as modificações das nações e economias e o futuro dos impérios no mundo tendo em linha de conta o seu enquadramento histórico. Absorvente, erudito e alvo de uma meticulosa investigação, é um livro indispensável para uma verdadeira compreensão do mundo onde vivemos. Longe de ser um 'otimista', Hobsbawm mostra-se crítico com relação às tendências que prevalecem no mundo de hoje. Considera 'remotas' as perspectivas de uma paz mundial sólida no século XXI; ressalta o forte crescimento das desigualdades econômicas e sociais e dos desequilíbrios ambientais e políticos trazidos pela globalização baseada no conceito do mercado livre; e não poupa críticas à atuação do governo americano, tanto do ponto de vista econômico-financeiro quanto do político-militar. Com o ar crítico e ousado que caracteriza seus estudos, Hobsbawm classifica a democracia como 'uma vaca sagrada que dá pouco leite' e, sem perder o estilo, a leveza e o bom humor, diz que 'enfrentamos o terceiro milênio como o irlandês anônimo que, perguntado sobre o caminho para Ballynahinch, refletiu e disse - 'Se eu fosse você, não começaria por aqui'.' Segundo E.H., as Nações-estado, mesmo as maiores, são incapazes de controlar por mais tempo o que está acontecendo com a economia mundial, mas podem, contudo, determinar a forma e a natureza da globalização. Ela vai ter de conviver com as nações-estado, cenários das decisões políticas, porque a política tem resistido à globalização, continuando a confrontá-la. As pressões políticas, creio, irão refrear o processo de globalização na próxima década, embora seja pouco provável um revival do protecionismo verificado no período entre-guerras. A globalização vai continuar. Espero que os governos que hoje exercem liderança mundial sejam forçados a abandonar sua aposta no descontrole do mercado livre. Os EUA falharam em seus planos de impor uma política hegemônica sobre o globo após o 11 de Setembro e a guerra contra o Iraque mostrou os limites dessa que foi a mais extraordinária máquina de guerra de nossa época, o que nos dá segurança para dizer que a era dos impérios está definitivamente morta. Se Levarmos em Conta a A instabilidade da nova economia global parece evidente e as nações-estado são aparentemente incapazes de governar a si mesmas aonde visualizamos Muitas regiões do globo - a África, o Oriente Médio, parte do sudeste europeu e a ex-União Soviética - já estão vivendo a era da desordem global. A tendência à desintegração dos estados, principalmente após o colapso dos impérios do século 20, é reforçada por uma nova tendência: a da fragmentação das mais antigas unidades políticas estáveis do mundo rico, como Grã-Bretanha, Espanha, Bélgica, Itália e Canadá. Essa tendência à ‘balcanização’ e ao enfraquecimento do poder estatal certamente favorece a desordem global, mas sua causa principal tem sido a crença de Washington de que os EUA podem impor uma ordem mundial de mão única. O estabelecimento de um padrão mais razoável de política internacional, que reconheça os limites desse poder e a existência de um sistema pluralista, seria menos perigoso. Movimentos separatistas, de modo geral, recorrem à ajuda política de forças externas para conquistar autonomia ou independência, mas os estados que são incapazes de governar a si mesmos não se tornam necessariamente mais governáveis quando ocupados por exércitos estrangeiros.

A miséria permanece um problema em economias emergentes. Particularmente no Brasil, os programas sociais destinados a aliviar a pobreza parecem inoperantes para atender às metas da globalização. A globalização trouxe um rápido crescimento econômico e com ele uma diminuição significativa da pobreza mundial. Ao mesmo tempo, fez crescer a distância entre ricos e pobres. Isso parece evidente em países como a China, onde a globalização se torna visível pela rápida industrialização e geração de empregos. E, vale lembrar, o nome do crescimento econômico, para a maioria das pessoas , é emprego. A Índia, por exemplo, tem mais pobreza que a China porque seu crescimento econômico não se baseia na evolução da indústria de manufaturados. Ao mesmo tempo, a fase atual da globalização, que abre mercado e garante altos preços para produtos agrícolas, favorece países como o Brasil, mas, infelizmente, tem pouco efeito na promoção social dos pobres ou de pequenos agricultores. Os programas para minimizar os efeitos da pobreza têm pouco a ver com a globalização e mais com a correção de certas deficiências de cada país. Não estou capacitado para julgar o que está sendo feito no Brasil, mas o país continua como exemplo extremo de inadequação social e econômica.


O rápido crescimento da China provocou um tremendo impacto em quase todos os países, pequenos ou grandes, contribuindo para elevar o preço das mercadorias e, ao mesmo tempo, tornar economias dos pequenos mais vulneráveis. Considerando que o tamanho e a velocidade do crescimento da China salvaram a economia mundial dos efeitos de uma economia fraca e instável como a americana, ela deveria ser vista como benéfica para a economia de outros países, e não como um perigo. A dependência num único mercado exportador de produtos primários não é uma desvantagem, a menos que tal mercado entre em colapso. Aí, de fato, não haveria alternativa. Argentina e Uruguai, no começo do século 20, saíram-se muito bem ao se livrar da dependência do mercado britânico. Pequenas economias não são necessariamente mais vulneráveis que grandes economias - veja o caso da Islândia, Dinamarca, Noruega e Finlândia. Na verdade, pequenas economias podem até se adaptar mais facilmente à globalização que as grandes, concentrando-se em nichos particulares da economia mundial.

Países desenvolvidos manipulam as leis internacionais de comércio para se proteger, impondo altos custos a outros países e ameaçando-os ainda com a poluição e outras conseqüências negativas de suas atividades. A maneira de Como fazer a globalização funcionar se os países desenvolvidos têm menos consciência ecológica que os não-desenvolvidos é que tais países são mais conscientes e quais os menos conscientes? E mesmo que eles sejam conscientes, isso determina um comportamento ecológico? O governo chinês, por exemplo, é mais consciente que o americano, embora os dois sejam igualmente grandes poluidores. O problema não reside em decisões de cunho nacional, mas na ausência de uma autoridade global capaz de impor medidas de controle para lidar com um problema que é global. Se ela existisse, haveria pontos a discutir sobre como suas decisões afetam países em desenvolvimento.

A possibilidade de uma recessão mundial não está longe, considerando a mudança do sistema de reservas global motivada por uma economia instável. Os meios de eliminar a dependência de uma moeda única em tese e parece claro que o dólar não pode manter por mais tempo sua posição como padrão monetário internacional, considerando as quedas sucessivas da moeda americana. Não sabemos ainda quanto tempo demorará para ele ser substituído por outro parâmetro monetário internacionalmente aceito, tal como imaginou Keynes. É evidente que a maioria das pessoas e estados gostaria de se livrar de seus dólares, mas temem as conseqüências de um súbito colapso da moeda na economia mundial.

O terrorismo de pequenos grupos, que certamente deve ser combatido, não representa uma ameaça real ao mundo moderno. Os terroristas demonstraram sua habilidade em cometer massacres indiscriminados e chocantes, mas o terrorismo não é um fator político ou militar relevante e, mesmo em países onde é proeminente, representa apenas uma pequena célula de resistência à ocupação estrangeira. É ameaçador, sem dúvida, mas porque não o entendemos, não por representar perigo. Os efeitos do furacão Katrina nos EUA foram incomparavelmente maiores que o 11 de Setembro, em que morreram dramaticamente muitos inocentes. É essencial ter em mente os limites do terrorismo para que não fiquemos histéricos. Sobre antigas crenças e culturas ancestrais, há pouco de antigo no braço extremista islâmico que inspira uma organização como a Al-Qaeda. A fatwa que permite a matança indiscriminada de inocentes, incluindo aí muçulmanos, não havia sido aprovada pelo clero egípcio até o começo dos anos 1970. O barbarismo dos quais os terroristas modernos são representantes não está baseado na antiguidade ou na tradição, mas nas sociedades dos séculos 20 e 21.







Opinião de Eric Hobsbawn sobre o terrorismo

O terrorismo não é um inimigo; é um termo propagandístico para qualificar atos de pessoas que não nos agradam e empregam a violência; aos que nos agradam, não chamamos de terroristas, mas combatentes da liberdade ou qualquer outra coisa. Não é que terrorismo seja uma expressão sem sentido, nem muito menos. Porém, desde o ponto de vista dos EUA, é uma outra forma de dizer: “Vamos lutar contra qualquer um que possamos vencer. E isso significa qualquer um”.

12/03/2008

Cronologia O conflito Israel - Palestina

O conflito israelo-palestino envolve a disputa dos dois povos pelo direito à soberania e pela posse da terra ocupada por Israel e pelos territórios palestinos.

O impasse teve início no século 19, quando judeus sionistas expressaram o desejo de criar um Estado moderno em sua terra ancestral e começaram a criar assentamentos na região, na época controlada pelo Império Otomano.

Desde então, houve muita violência e controvérsia em torno da questão, assim como vários processos de negociações de paz durante o século 20 e ainda estão em andamento.

Tanto israelenses quanto palestinos reivindicam sua parte da terra com base na história, na religião e na cultura. Os israelenses, representados pelo Estado de Israel, têm soberania sobre grande parte do território, que foi conquistado após a derrota dos árabes em duas guerras --o conflito árabe-israelense de 1948 e a Guerra dos Seis Dias, de 1967.

Os palestinos, representados pela Autoridade Nacional Palestina (ANP), querem assumir o controle de parte dos territórios e estabelecer um Estado Palestino soberano e independente.

Grande parte dos palestinos aceitam as regiões da Cisjordânia e da faixa de Gaza como território para um futuro Estado palestino. Muitos israelenses também aceitam essa solução.

Uma discussão em torno dessa solução ocorreu durante os Acordos de Oslo, assinados em setembro de 1993 entre Israel e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que permitiu a formação da ANP. No entanto, Israel e ANP não chegaram a uma posição comum.

Apesar de vários outros acordos e planos de paz, como os de Camp David e das negociações do chamado Quarteto para o Oriente Médio (Estados Unidos, União Européia, Rússia e ONU), a situação ainda se vê hoje em um impasse.

Atualmente, as negociações esbarram na questão do governo palestino, que, liderado pelo movimento radical islâmico Hamas (que assim como o moderado Fatah possui braços armado e político) não reconhece o direito de existência de Israel. Após a vitória do Hamas (considerado pelos EUA e por Israel como um grupo terrorista) em 2006, a comunidade internacional iniciou um bloqueio financeiro à ANP que gera uma grave crise nos territórios palestinos.

O recente acordo entre o Hamas e o Fatah para a formação de um governo de coalizão ainda não permitiu o retorno de negociações que incluam os palestinos no processo de paz. O impasse é devido, principalmente, à resistência do Hamas em reconhecer Israel e à resistência da comunidade internacional em reconhecer a legitimidade do movimento islâmico como representante dos palestinos.

Veja a cronologia do conflito:


1862: Publicação de Roma e Jerusalém pelo Moses Hess.

Nascido na Alemanha, Hess foi morar em Paris, onde ele era ativo em grupos socialistas. Entre 1842 à 1843 ele serviu como correspondente do Rheinische Zeitung, editado pelo Karl Marx. Em 1862 ele publica Roma e Jerusalém, uma defensa sistemática do nacionalismo judeu. Hess disse no livro que o ódio contra judeus era uma coisa inevitável, e a única maneira deles conseguirem uma vida nacional era se mudando para Terra Santa. Ele foi um dos criadores do Sionismo.

Sionismo: “O sionismo é um movimento político entre os judeus (também apoiado por não-judeus) que defende que o povo Judaico tem direito a constituir uma nação e viver na sua terra natal. Formalmente fundado em 1897, o sionismo era formado por uma variedade de opiniões sobre em que terra é que a nação judaica deveria ser fundada. A partir de 1917 ele focou-se definitivamente no estabelecimento de um estado na Palestina, a localização do antigo Reino de Israel.” (Yahoo respostas)

1882: Publicação de Autoemancipação pelo Leon Pinsker

Pinsker nasceu na Polônia (Rússia) em 1821, ele fez colegial na Rússia, cursou direito em Odessa e depois medicina na Universidade de Moscou. Ele começou a contribuir para periódicos judeus em 1860, e foi ativo num grupo o qual o objetivo era espalhar a cultura judaica para os judeus da Rússia. Porém, quando os judeus foram massacrados pelos pogroms de 1881, ele deixou esse grupo, convencido que uma atitude mais radical deveria ser tomada, assim resolvendo o martírio dos Russos judeus.

1882-1903: Primeiro Aliyah

Aliyah é o termo usado especificamente para se referir a imigração dos Judeus à Israel. Durante o primeiro Aliyah, aproximadamente 25 mil judeus entraram na Palestina. Em 1850 os Judeus eram a maioria em Jerusalem. Os Otomanos não fizeram nada para limitar a imigração, na verdade, uma lei de 1867 deu o direito para os estrangeiros possuírem suas próprias terras no Império Otomano. Isso facilitou o aquisição sionista de terra na Palestina. A primeira reação séria contra a imigração judaica aconteceu quando o aliayah estava ficando mais sistemático e regular no último quarto do século 19. A primeira briga entre os camponeses palestinos e judeus aconteceu em Junho de 1891.

Representantes das famílias mais proeminentes em Jerusalem mandaram uma carta para Constantinopla expressando seus receios sobre o número de imigrantes judeus na Palestina e pedindo para o sultão controlar a imigração e compra de terras. A comunidade cristã foi uma das primeiras que viu os perigos dessa imigração crescente.

Nesse mesmo tempo Theodor Herzl (líder e criador do Sionismo) estava tentando persuadir o sultão Abd al-Hamid a tratar os objetivos sionistas favoravelmente. Abd al-Hamid foi o último sultão Otomano, líder oficial não apenas do Império Otomano, mas também da Umma Islâmica. O império Otomano estava numa crise econômica, a culminação de um longo declínio, junto com corrupção e oportunismo politico exterior. O Império tinha uma dívida externa gigante. Herzl tentou explorar essa fraqueza, oferecendo ajuda financeira para pagar a divida e então liberar o Império de dominação estrangeira. Em retorno ele pediu ao sultão para permitir imigração na Palestina, ou pelo menos parte da Palestina. Herzl ofereceu mais tarde 20 milhões, mas Abd al-Hamid negou.

1896: Publicação do O Estado Judeu pelo Theodor Herzl.

Herzl foi o fundador do Sionismo e a figura mais importante na imigração dos judeus para Palestina. Ele tentou convencer não apenas o Sultão, mas o Kaiser da Alemanha, e depois os Ingleses.



1917 - Declaração do Reino Unido

O Reino Unido divulga a Declaração de Balfour, que concede aos judeus direitos políticos como nação, e foi vista pelo povo judeu como uma promessa para a formação de um Estado Judeu nos territórios palestinos.

1947 - Plano de partilha da ONU

Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprova plano para partilha da Palestina, ou seja, a criação de Israel e de um Estado palestino. Até então, a região era uma colônia britânica. A partilha é rejeitada por árabes e palestinos, que prometem lutar contra a formação do Estado judaico.

1949 - Expansão das fronteiras

Em 1949 Israel vence guerra árabe-israelense e expande fronteiras. Cisjordânia e Jerusalém Oriental ficam com a Jordânia; Gaza, com o Egito.

Vários outros conflitos armados ocorreram entre o Estado de Israel e os árabes e palestinos tendo como foco Israel e seu território. No que concerne à conquista de terras, é importante destacar também a Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Israel conquista o deserto do Sinai, a faixa de Gaza (Egito), a Cisjordânia, Jerusalém Oriental (Jordânia) e as colinas do Golã (Síria).

Em 1982, seguindo um acordo entre Israel e o Egito alcançado três anos antes, os israelenses se retiram do Sinai.

1987 - Intifada

Entre 1987 e 1993, os palestinos empreenderam uma revolta popular contra Israel que ficou conhecida como Intifada. Marcada pelo uso de armas simples, como paus e pedras lançadas pelos palestinos contra os israelenses, a Intifada incluiu também uma série de atentados graves contra judeus.

1993 - Acordos de Oslo

Em 1993, na Noruega, Israel se compromete a devolver os territórios ocupados em 1967 em troca de um acordo de paz definitivo. Israel deixa boa parte dos centros urbanos palestinos em Gaza e Cisjordânia, dando autonomia aos palestinos, mas mantém encraves. O prazo é adiado devido a impasses sobre Jerusalém, o retorno de refugiados palestinos, os assentamentos judaicos e atentados terroristas palestinos.

1998 - Processo de paz

Após acordos de paz entre israelenses e palestinos, como o de Oslo (93) e o de Wye Plantation (98), Israel entregou porções de terra aos palestinos.

2000 - Camp David

Em julho de 2000, em Camp David (EUA), Israel ofereceu soberania aos palestinos em certas áreas de Jerusalém Oriental e a retirada de quase todas as áreas ocupadas, mas Iasser Arafat [morto 11 de novembro de 2004, após ficar internado durante 14 dias em um hospital militar na França] exigiu soberania plena nos locais sagrados de Jerusalém e a volta dos refugiados. Israel recusou.

2000 - Segunda Intifada

O segundo levante popular palestino contra Israel que teve início em setembro de 2000 ficou conhecido como segunda Intifada, e começou quando o então premiê de Israel, Ariel Sharon, visitou a Esplanada das Mesquitas, local mais sagrado de Jerusalém para palestinos e judeus (que o chamam de Monte do Templo).

2002 Muro de proteção

Israel começa a erguer uma barreira para se separar das áreas palestinas com o objetivo de impedir a entrada de terroristas. Palestinos afirmam que a construção do muro é uma anexação de território. A construção inclui série de muros de concreto, trincheiras fundas e cercas duplas equipadas com sensores eletrônicos

2002 - Quarteto

Em outubro de 2002, um enviado dos EUA apresenta pela primeira vez um esboço do plano de paz internacional elaborado pelo Quarteto [EUA, Rússia, União Européia e ONU]. O novo plano segue as linhas traçadas pelo presidente dos EUA, George W. Bush. Prevê o fim da violência, seguido por reformas políticas e nos serviços de segurança palestinos e a retirada de Israel de territórios ocupados.

Forças israelenses cercam Arafat na Muqata (QG do líder) em meio a uma ampla ofensiva lançada após uma onda de ataques terroristas em Israel. Arafat fica proibido por Israel de deixar a Muqata. Fica confinado até antes de sua morte, em novembro de 2004.

2003 - Plano de Paz Internacional

O plano é oficializado em 2003. Seu texto propõe um cessar-fogo bilateral, a retirada israelense das cidades palestinas e a criação de um Estado palestino provisório em partes da Cisjordânia e da faixa de Gaza. Em uma última fase, seria negociado o futuro de Jerusalém, os assentamentos judaicos, o destino dos refugiados palestinos e as fronteiras. Não é mencionado no texto a exigência do governo israelense de que o presidente da ANP (Autoridade Nacional Palestina), Iasser Arafat, morto em 11 de novembro último, seja removido do cargo. Apenas diz que os palestinos precisam de uma liderança que atue duramente contra o terror.

2003 - Mahmoud Abbas

Em maio, assume o cargo de premiê palestino o moderado Mahmoud Abbas, indicado por Iasser Arafat após ampla pressão internacional.

Abbas renuncia cerca de quatro meses depois após divergências com Arafat em relação ao controle da segurança palestina.

2004 - Morte de Arafat

Em novembro, morre o líder da Organização pela Libertação da Palestina, Yasser Arafat.

2005 - Eleição

Em janeiro, Mahmoud Abbas vence as eleições e se torna o novo presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP). Um ano depois, a frustração com seu partido, o Fatah, acusado de corrupção, colabora para a vitória do movimento rival Hamas nas eleições parlamentares palestinas, levando o islâmico Ismail Haniyeh ao posto de premiê.

A vitória do Hamas levou a comunidade internacional --liderada pelos EUA e por Israel-- a empreenderem um boicote financeiro à ANP, detonando crises internas e episódios de violência.

2005 - Plano de retirada

Lançado pelo premiê israelense, o plano unilateral de Sharon --que alega ter tomado essa iniciativa por não contar com interlocutores confiáveis no lado palestino-- visa retirar de Gaza e parte da Cisjordânia 25 assentamentos judaicos e suas forças militares. Convivem hoje no território 1,3 milhão de palestinos e cerca de 8.500 judeus. Facções contrárias à retirada adotam o discurso de não desistir de nenhum centímetro de terra.

2006 - Afastamento de Sharon

Em janeiro, o então premiê israelense Ariel Sharon sofre um derrame cerebral e entra em coma. Ele é substituído interinamente pelo atual premiê, Ehud Olmert. Em março, eleições israelenses dão a vitória ao partido Kadima (centro), de Olmert, e após formar uma coalizão o líder é confirmado no posto de premiê israelense.

2007 - Governo de coalizão palestino

Após meses de negociações, os partidos palestinos rivais Fatah (do presidente da ANP, Mahmoud Abbas) e Hamas (do premiê palestino, Ismail Haniyeh) concordam com a criação de um novo gabinete com poder compartilhado. O acordo foi fechado em Meca (Arábia Saudita) em uma reunião com Abbas, Haniyeh e o líder político do Hamas na Síria, Khaled Meshaal, no dia 8 de fevereiro.

A negociação foi marcada pela violência interna que custou a vida de dezenas de palestinos entre dezembro e fevereiro.

Apesar da comunidade internacional --incluindo Israel-- ter pressionado pela realização do acordo entre os dois movimentos, Israel não tem a intenção de tratar com o novo governo palestino.

O Hamas continua a não aceitar de forma direta ou indireta o reconhecimento de Israel, os acordos firmados e a renúncia à violência, informou um comunicado do Ministério de Relações Exteriores de Israel. Esses três pontos são as exigências da comunidade internacional para o fim do bloqueio financeiro à ANP.


fonte: folhaonline, sites diversos

07/03/2008

Resenha - O Brasil: território e sociedade M. Santos M. Laura

Na busca de uma periodização pelo território brasileiro
é um partido essencial para um projeto ambicioso:
fazer falar a nação pelo território. Assim como a economia
foi considerada como a fala privilegiada por
Celso Furtado; o povo, por Darcy Ribeiro; e a cultura,
por Florestan Fernandes, pretendemos considerar o
território como a fala privilegiada da nação.
Essa citação de Milton Santos na obra escrita
junto com Maria Laura Silveira sintetiza bem o desejo
de caracterizar sua contribuição intelectual, cujo
papel seminal na geografia tem sido reconhecido no
Brasil e no mundo inteiro. Os autores partem de um
conceito central “território em uso” para designar a
profunda imbricação entre os artefatos e as técnicas
que transformam os espaços, com a política, a economia
e as relações que conferem direção e sentido a
essas transformações. Deixam claro que as mudanças
ficam registradas nas diferentes escalas com que
o território é apropriado e construído.
Em alguma parte do livro, os autores criticam as
pretensões totalizadoras da sociologia e da economia
que tenderiam a desconhecer a importância do espaço
construído, como se apenas as “relações” contivessem
a totalidade da realidade social. Lembrei-me então
de alguns conceitos caros a uma corrente da filosofia
e da sociologia dialética pensados por autores
como Goldmann e Sartre, à qual me filio, que discutem
as estruturas e os espaços construídos como
ações humanas objetivadas. Esse é o caso também do
pensamento de autores como Nicole Romognino cuja
sociologia dialética se funda na compreensão dos
fenômenos sociais como processos históricos; como
totalidades de significações construídas pelos sujeitos
e como totalidades significativas que se concretizam
na materialidade das formas sociais.
O Brasil: território e sociedade no início do século
XXI pode ser lido como uma síntese científica do
pensador Milton Santos, que criou escola e se associou
– como é o caso da parceria com Maria Laura –
para formular e difundir conceitos e metodologias e
criar discípulos, distinguindo sua contribuição de
tantas outras diferentes abordagens, com as quais
ora converge ora diverge. Mas é também o exemplo
didático de um autor que criou teoria, conceitos, métodos
e técnicas, testou-as na prática, expondo exemplos
de análises e se preocupando em atingir um
grande público. Sem nenhum caráter messiânico,
Milton Santos se tornou responsável pela multidão
de estudiosos que passaram a dividir a história da
geografia no período anterior e posterior a sua contribuição
acadêmica. Teoria e empiria marcam toda
a tessitura desta obra.
Os dois autores assim definem os objetivos de
seu trabalho: levar ao leitor comum uma interpretação
geográfica do Brasil; e oferecer aos estudiosos um

guia de trabalho, ainda que incompleto. E para isso,
discutem o lugar e a importância do que denominam
teorias menores, em contraposição às macro-teorias
que não conseguem propor esquemas aplicáveis de
análise. Consideram seu segundo objetivo sugerir
uma teoria das mediações, na qual a escolha dos fatos
e relações relevantes possa estar apoiada.
O trabalho apresenta a seguinte divisão conceitual:
no primeiro capítulo uso do território é a noção
central. No segundo, três conceitos estruturantes para
análise das transformações do Brasil são apresentados:
o meio natural (hoje quase inexistente); os sucessivos
meios técnicos e o advento do meio técnicocientífico-
informacional. O terceiro capítulo trata,
substantivamente, da constituição do meio geográfico
brasileiro através da história, articulando-se espaço
e tempo. Na quarta e quinta partes, os autores
aprofundam o papel da informação e do conhecimento
na reorganização produtiva do território e
suas especializações. Nos capítulos seis e sete, ganha
forma a idéia de movimentos e círculos de cooperação
que se multiplicam no território nacional, configurando
a modernidade do país. No capítulo oito, os
autores tratam da fluidez e da potência do capital financeiro
como motor do período contemporâneo no
Brasil e no mundo globalizado. No capítulo nono,
mostram como os diferentes fluxos de dinamismo
industrial, dos setores de serviços e financeiros, próprios
da atualidade, dão lugar a uma dinâmica populacional
diferenciada que marca o crescimento das
cidades médias e uma certa decadência das grandes
metrópoles; assim como uma cultura que passa a valorizar
a especificidade local em um quadro de comunicação
globalizada.
O livro, em sua segunda parte, trata da dinâmica
globalizadora num país de tão grandes extensões como
o Brasil que passa a ser um espaço nacional da
economia internacionalizada. Esse tema é discutido
de forma didática e aguçada a partir do conceito de
meio técnico-científico-informacional. A idéia central
dessa parte é que os círculos de cooperação instalam-
se num nível superior de complexidade e numa
escala geográfica muito mais ampla. A plena explicitação
da etapa metamorfoseada do território
brasileiro em meio técnico-científico-informacional
é apresentada como a cara geográfica da globalização.
Pois os acréscimos da ciência, tecnologia e informação
ao território são, ao mesmo tempo, produto e
condição para o desenvolvimento do trabalho material
e intelectual.
Especificando a originalidade do momento atual
a partir da classificação marxista do ciclo econômico
que se realiza pela produção, circulação e reprodução
de bens e mercadorias, os autores pontuam que,
no presente, a circulação preside a produção. E os fluxos
que daí derivam são mais intensos, mais extensos
e mais seletivos, redimensionando o território
em todas as escalas. Os autores falam de quatro grandes
regiões do Brasil nesse atravessamento de século,
denominando-as Quatro brasis. Seriam: uma região
concentrada formada pelo Sudeste e pelo Sul; o Brasil
do Nordeste; o Centro-Oeste e a Amazônia. Nessas regiões
estariam presentes dualidades e contradições:
zonas de densidade e de rarefação; espaços de rapidez
e lentidão; espaços que mandam e espaços que
obedecem. Assim se referem que: num movimento
desigual e combinado, cria-se uma nova geografia do
Brasil, caracterizada, quanto à nova tecnosfera, por
uma região concentrada e por manchas e pontos, enquanto
há uma tendência à generalização da nova
psicosfera, característica do presente período histórico.
O livro termina com oito estudos de caso que são
especificações concretas, por outros estudiosos, do
uso da teoria, do método e das técnicas propostos
por Milton Santos e Maria Laura Silveira. Além de
toda a riqueza conceitual e empírica, há muitos mapas
que localizam, para o leitor, as periodizações, as
especificidades geográficas, demográficas, sociais,
econômicas, técnicas e científicas, e permitem perceber

perceber
a complexidade do momento atual. O livro é um
presente aos leitores que pretendem cultivar uma
consciência crítica que respire, ao mesmo tempo,
muita esperança. De cada página, seus autores fazem
emergir liberdade científica, ética acadêmica, amor
pelo Brasil e compromisso com as gerações presentes
e futuras que continuarão usando e construindo
o território brasileiro. Com certeza, chegaram ao que
pretendiam: propor uma teoria do Brasil a partir do
território, uma tentativa de explicação da sociedade
tomando como pano de fundo o próprio espaço geográfico.
Há uma profusão de conceitos nucleadores e
de idéias-chave espalhadas pelas quase 500 páginas
do livro. Deixo ao leitor o privilégio de saciar sua curiosidade
intelectual e de reinterpretar, de acordo
com seu olhar, a beleza e a grandeza do pensamento
de Milton Santos e de Maria Laura Silveira.

05/03/2008

Resenha - Maldita Guerra - Doratioto

Segundo DORATIOTO, “a Guerra do Paraguai foi o conflito externo de maior repercussão para os países envolvidos, quer quanto à mobilização e perda de homens, quer quanto aos aspectos políticos e financeiros”. Ao ser iniciada, no entanto, ninguém imaginava que a guerra se estenderia por cinco anos e tomasse as proporções que tomou.
Francisco Solano López entrou em rota de colisão com Brasil e Argentina ao buscar uma participação ativa nos acontecimentos platinos, apoiando o governo uruguaio hostilizado pelos seus dois maiores vizinhos. Foi assim que acabou por ordenar a invasão de Mato Grosso e Corrientes, declarando guerra ao Brasil e à Argentina, respectivamente nos anos de 1864 e 1865.
Por não se acreditar que o Paraguai estivesse disposto a romper com o Império do Brasil em decorrência do ultimatum dado a Montevidéu, o exército do Império se encontrava totalmente despreparado quando foi surpreendido com a invasão de Mato Grosso, a tal ponto que mesmo seis meses depois de iniciada a luta, não conseguiu tomar a ofensiva. Mato Grosso, que era a província mais isolada e indefesa do Brasil, tornou-se alvo fácil para a invasão paraguaia.
O Paraguai esteve na ofensiva militar entre dezembro de 1864 e setembro de 1865, ao invadir o território brasileiro e argentino. O plano de Solano López de uma guerra-relâmpago, que poderia resultar em um novo equilíbrio de poder no Prata, no entanto, fracassou. As forças invasoras de Corrientes e do Rio Grande do Sul não aproveitaram adequadamente o fator surpresa. Ademais, os blancos, que estavam do lado paraguaio, saíram do poder no Uruguai e, em Corrientes e Entre-Ríos, a população não aderiu à força invasora.




Os antecedentes da Guerra

A Guerra do Paraguai durou mais de cinco anos, de dezembro de 1864 a março de 1870. Brasil, Argentina e Uruguai formaram a Tríplice Aliança contra o Paraguai. A Inglaterra financiou a guerra, fazendo empréstimos ao Brasil. Doratioto busca os antecedentes históricos do conflito. Carlos Antônio López era o presidente do Paraguai desde 1840 e tinha cinco filhos, sendo Solano López um deles. Em agosto de 1862, Carlos adoeceu e fez seu primeiro testamento político, designando seu outro filho, Angel Benigno López, para assumir o cargo de vice-presidente. Mas quando Solano López soube que seu pai piorara de saúde, “retornou a Assunção e discordou quando Carlos López comunicou a decisão de nomear Angel Benigno López para vice-presidente. Solano López conseguiu que o moribundo alterasse o testamento, nomeando-o para esse cargo”.

Carlos Antônio López morreu no dia 10 de setembro de 1862, mas antes de falecer fez um pedido a Solano: “Tem muitas questões pendentes, mas não busque resolvê-las pela espada, mas sim pela caneta, principalmente com o Brasil”. A história seria bem diferente do pedido de Carlos Lopes ao seu filho. Solano López assumiu a chefia do Estado do Paraguai em 16 de outubro de 1862 e deu continuidade à tradição de autoritarismo no país. Em setembro de 1864, César Sauvan Viana de Lima, ministro brasileiro em Assunção “começou a considerar a possibilidade do governo paraguaio ter intenções de promover uma ação armada contra o Brasil” e que se o Brasil invadisse o Uruguai, a guerra estaria declarada.

Questão Uruguaia

O Uruguai estava dividido entre blancos e colorados. Os blancos eram nacionalistas radicais e os colorados mais liberais. No país, um terço da população era constituída de brasileiros a maioria, gaúchos, que tinham terras por lá. Em 1863, o governo imperial tentou evitar o envolvimento dos cidadãos brasileiros na guerra civil uruguaia e buscou conciliar a Argentina e o Uruguai por meio da missão Loureiro. Em abril de 64, a temperatura aumentou na região: o conselheiro brasileiro José Antônio Saraiva foi exigir do governo uruguaio o respeito aos direitos dos brasileiros residentes no país. Estava no poder o líder blanco Bernardo Berro, mas seu mandato “na presidência do Uruguai terminou no início de 1864 e a Guerra Civil no país impediu a realização de novas eleições. O presidente do senado, o blanco Atanásio de la Cruz Aguirre, assumiu, então, o Executivo Uruguaio, prosseguindo na luta contra a rebelião colorada”. Aguirre não queria negociar e o Brasil se preparava para intervir no país. O governo paraguaio acusava o Brasil de querer aumentar seu território às custas de Estados menores e de querer monopolizar o comércio do Prata. Pelas declarações de Solano López, caso as tropas brasileiras entrassem no Uruguai, seria declarada a guerra. Paralelo a isso, Venâncio Flores, um grande líder colorado,estava exilado na Argentina e se preparando para subir ao poder com o apoio brasileiro e argentino.
Em 12 de outubro daquele ano, uma brigada brasileira, sob o comando do general José Luis Mena Barreto invadiu o Uruguai. Venâncio Flores, com sua tropa, também entrou no país e,com a ajuda das tropas imperiais, conseguiria tirar os blancos do poder. Com essa invasão, Solano interpretou que o Império declarava guerra e assim capturou o vapor Marquês de Olinda e toda a tripulação do barco brasileiro, que navegava no Rio Paraguai, acreditando que faziam carregamento de armas, mas que, na verdade transportava passageiros3, correspondências,dinheiro e mercadorias para a então província de Mato Grosso. Com esse ato, Solano convencera-se de que o Brasil se preparava para guerrear. “Apesar da esmagadora inferioridade geográfica, demográfica e econômica, o governante paraguaio pretendeu enfrentar o Império, o
mais povoado e rico dos Estados sul-americanos, aliado à Argentina e ao Uruguai". Paraguai na Guerra: invasão em Mato Grosso A situação paraguaia foi descrita por Doratioto assim: com armamento obsoleto, o país possuía um único vapor armado, o “Tacuarí”, e uma população de aproximadamente 400 mil habitantes. “Mas a falta de oficiais não impediu Solano López de começar a guerra [...]. De acordo com informe da Legação Norte-americana em Assunção, o governo paraguaio buscavaum confronto com o Brasil” Solano preparava-se para invadir o Brasil, enquanto o país governado por D. Pedro II ocupava-se da campanha militar contra os blancos uruguaios. Uma das únicas providências de precaução que o Império tomou foi a de reforçar o forte Coímbra em Corumbá4 com 70 homens e mais 143 militares em Miranda e Nioaque. O Paraguai invadiu a província de Mato Grosso em duas colunas. A primeira, pelo antigo forte paraguaio de Bela Vista e por onde é hoje Ponta Porã. O ataque causou indignação no Brasil “...visto como ato traiçoeiro e injustificável, pois eram normais as relações entre os dois países,bem como o fato de o Marques de Olinda ter sido aprisionado sem declaração de guerra”.O autor enfatiza a vontade de guerra que tinha Solano López. Os ataques à Mato Grosso e Corrientes viabilizaram uma atuação conjunta entre o Brasil e a Argentina, formalizada pelo Tratado da Tríplice Aliança, à qual o Uruguai também aderiu. Em 1º de maio de 1865, esse documento foi assinado, em Buenos Aires, estabelecendo como alvo principal o presidente paraguaio. A população brasileira esperava uma guerra curta e rápida. Segundo Doratioto, “mesmo depois de ter grande parte de seu território ocupado pelos paraguaios, em janeiro de 1865, o governo mato-grossense foi mantido desinformado sobre o que ocorria na guerra”.

Questão inglesa

Quem mais lucrou com a guerra foi a Inglaterra porque foi este país quem fez empréstimos ao Império no valor de 5 milhões de libras e “a quantia deveria ser saldada em 37 anos com pesados juros, para a época, de 5% ao ano” (2002:204). Assim, o Brasil acabou por pagar 160% a mais do valor recebido. Mas o conflito, segundo Doratioto, teria pouca relação com a Inglaterra.A relativização do papel desempenhado pela Grã-Bretanha é o maior contraponto de Doratioto. A Inglaterra serviu apenas para financiar a guerra e não teve a intenção de destruir o Paraguai e dizimar sua população. No capítulo III de “MalditaGuerra”, as potências européias, incluindo a Inglaterra, são tratadas, no título, como “países neutros”.



Os paraguaios eram influenciados por periódicos como o jornal “El Centinela”, pregando que a Tríplice Aliança estava derrotada e que o Paraguai seria o grande vencedor. Ele conta como Solano era retratado nesse jornal:“Como sempre a 'vitória' foi atribuída ao 'heróico' e 'invicto' marechal Solano López, cujos'invencíveis exércitos [...] despedaçaram os negros imbecis', fazendo com que o restante das tropas aliadas se refugiassem 'no espesso matagal, para esconder sua vergonha'. Nesse mesmo número, El Centinela publicava uma ode em que Solano López era classificado de 'grande gênio', 'grande guerreiro', e tinha como versos finais:

Salve, oh vós conspícuo Cidadão
Portento de valor e heroísmo
Que tua figura altiva
Pelos séculos para sempre eterna viva”

De março de 1870, após a morte de Solano López em Cerro Corá, até o final do século XIX, ele era odiado pelos sobreviventes. Naquela época, o Paraguai era visto como um país derrotado em “uma guerra da qual fora o agressor. Ao mesmo tempo, despontava uma geração de estudantes universitários [...] desejosos em [...] encontrar um pensamento que, ao mesmo tempo, recuperasse a auto-estima nacional”. Assim nasceu o revisionismo histórico que buscou reconstruir a imagem do ditador Solano López em herói. O escritor Juan Emiliano O'Leary fora o responsável por recuperar essa imagem e passou a ser conhecido como “El Reivindicador”. Na guerra, de acordo com Doratioto, Solano não admitia seus erros e seus chefes militares também não ousavam dizer a ele que perdiam uma batalha. Só falavam o que o presidente paraguaio gostaria de ouvir, pois ele não aceitaria derrotas. Toda essa dureza era demonstrada nos campos de batalha com seus próprios soldados. Na batalha de Curuzú, paraguaios fugiram da luta e foram punidos, como conta o autor: “Os soldados foram perfilados, contava-se até dez e o décimo soldado era retirado da formação. Repetiu-se a contagem até o final do batalhão e os soldados assim separados foram imediatamente fuzilados”. Os soldados do exército paraguaio que voltou de Corrientes com 8.500 paraguaios a menos, não podiam se queixar pois, se denunciados, seriam castigados. “O descontentamento está registrado nos processos contra militares, acusados de traição por fazerem comentários críticos à condução da guerra por Solano López e às condições de vida da tropa” . O capitão José Maria Rodríguez foi condenado à morte e fuzilado por criticar o ditador. Solano mandou prender o próprio irmão Benigno López, além de outros envolvidos, sob a acusação de conspiração. Foram instalados seis tribunais para julgar os supostos conspiradores. “López marcava com x, a lápis, os nomes dos acusados que deveriam ser mortos”. Os acusados confessavam mediante tortura. Eles tinham as mãos esmagadas com marteladas, eram chicoteados, espancados e muitos morriam nessas sessões de tortura. Em San Fernando, havia um grande terreno, com estacas e nenhuma proteção do sol e chuva, que abrigava os presos. Os sentinelas batiam nos prisioneiros, que recebiam entranhas dos animais mortos como refeição. Em setembro de 1868, Solano López se transferiu de San Fernando para Piquissirí e Doratioto relata o sofrimento desses soldados:“Os prisioneiros tiveram que marchar, em sete dias, quase duzentos quilômetros, com grilhões presos aos pés. Foram obrigados, inclusive, a atravessar, durante cinco horas, um pântano, com água na cintura, e os que, exauridos, não conseguiam mais caminhar foram mortos por baionetas. A esposa do coronel Martinez, que se rendeu em Islã-poí, foi, como se viu, fuzilada, mas antes participara dessa marcha; estava desfigurada, com a cara enegrecida,e por ter sido colocada seis vezes no cepo, tinha o corpo coberto de feridas e as costas em carne viva” . As barbáries da guerra também foram atribuídas ao Conde D'Eu. Ele fazia parte da família real e viera da França ao Brasil, em 1864, para casar com a princesa Isabel. Ele assumiria o comando das forças brasileiras em 16 de abril de 1869, substituindo Caxias, que considerava a guerra terminada.

o Visconde de Taunay confirma a responsabilidade do Conde D'Eu nos degolamentos5. Doratioto questiona apenas a versão de que o comandante brasileiro tenha ordenado o incêndio de um hospital:“Parece não ser verídica, porém a informação, feita por diferentes autores, de que o príncipe mandara incendiar o hospital, no qual morreram carbonizados mais de cem feridos.Provavelmente o incêndio foi conseqüência do bombardeio da vila pelos canhões brasileiros, no início do ataque” .