02/03/2008

Resenha - FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL- Celso Furtado

FORMAÇÃO ECONÔMICA DO BRASIL



FUNDAMENTOS ECONÔMICOS DA OCUPAÇÃO TERRITORIAL


DA EXPANSÃO COMERCIAL À EMPRESA AGRÍCOLA




A ocupação econômica das terras americanas constitui um episódio da expansão comercial da Europa. Não se trata de deslocamentos de população provocados por pressão demográfica - como fora na Grécia - ou de grandes movimentos de povos determinados pela ruptura de um sistema cujo equilíbrio se mantivesse pela força - caso das migrações germânicas em direção ao ocidente e sul da Europa. O comercio interno europeu , em intenso crescimento apartir do séc. XI, havia alcançado um elevado grau de desenvolvimento no séc. XV, quando as invasões turcas começaram a criar dificuldades crescentes as linhas orientais de abastecimento de produtos de alta qualidade, inclusive manufaturas.

O início da ocupação econômica do território brasileiro é em boa medida uma conseqüência da pressão política exercida sobre Portugal e Espanha pela demais nações européias. Nestas últimas prevalecia o princípio de que espanhóis e portugueses não tinham direito senão àquelas terras que houvessem efetivamente ocupado. A miragem do ouro que existia no interior das terras do Brasil - à qual não era estranha a pressão crescente dos franceses - pesou seguramente na decisão tomada de realizar um esforço relativamente grande para conservar as terras americanas.Em embargo, os recursos de que dispunha Portugal para colocar improdutivamente no Brasil eram limitados e dificilmente teriam sido suficientes para defender as novas terras por muito tempo. A Espanha, cujos recursos eram incomparavelmente superiores, teve que ceder à pressão dos invasores em grande parte das terras que lhe cabiam pelo Tratado de Tordesilhas. Para tornar mais efetiva a defesa de seu quinhão, foi-lhe necessário reduzir o perímetro deste. Demais, fez-se indispensável criar colônias de povoamento de reduzida importância econômica - como no caso de Cuba - com fins de abastecimento e de defesa. Coube a Portugal a tarefa de encontrar uma forma de utilização econômica das terras americanas que não fosse a fácil extração de letais preciosos. Somente assim seria possível cobrir os gastos de defesa dessas terras. Das medidas políticas que então foram tomadas resultou o início da exploração agrícola das terras brasileiras, acontecimento de enorme importância na história americana.






FATORES DO ÊXITO DA EMPRESA AGRÍCOLA

Um conjunto de fatores favoráveis tornou possível o êxito dessa primeira grande empresa colonial agrícola européia. Os portugueses haviam já iniciado há algumas dezenas de anos a produção, em escala relativamente grande, nas ilhas do Atlântico, de uma das especiarias mais apreciadas no mercado europeu: o Açúcar. Essa experiência permitiu a solução dos problemas técnicos relacionados com a produção do açúcar, fomentou o desenvolvimento em Portugal da indústria de equipamentos para os engenhos açucareiros. Se tem em conta as dificuldades que se enfrentavam na época para conhecer qualquer técnica de produção e as proibições que havia para exportação da equipamentos.

A significação maior da experiência das ilhas do Atlântico foi possivelmente no campo comercial.

A partir da metade do século XVI a produção portuguesa de açúcar passa a ser mais e mais uma empresa em comum com os flamengos, que recolhiam o produto de Lisboa, refinavam-no e faziam a distribuição por toda a Europa. A contribuição dos flamengos (particularmente dos holandeses) para a grande expansão do mercado do açúcar, na segunda metade do século XVI, constitui um fator fundamental do êxito da colonização do Brasil. Não somente com sua experiência comercial, pois parte substancial dos capitais requeridos pela empresa açucareira viera dos Países-Baixos.

O êxito da grande empresa agrícola do século XVI, constituiu portanto a razão de ser da continuidade da presença dos portugueses em uma grande extensão das terras americanas.

Nos século seguinte, quando se modifica a relação de forças na Europa com o predomínio das nações excluídas da América pelo Tratado de Tordesilhas, Portugal já havia avançado enormemente na ocupação efetiva da parte que lhe coubera.






RAZÕES DO MONOPÓLIO

Os magníficos resultados financeiros da colonização agrícola do Brasil abriram perspectivas atraentes à utilização econômica das novas terras. Sem embargo, os espanhóis continuaram concentrados em sua tarefa de extrair metais preciosos. Ao aumentar a pressão de seus adversários, limitaram-se a reforçar o cordão de isolamento em torno do seu rico quinhão.

A forma como estavam organizadas as relações entre Metrópole e colônias criava uma permanente escassez de meios de transporte; e era a causa de fretes excessivamente elevados. A política espanhola estava orientada no sentido de transformar as colônias em sistemas econômicos o quanto possível auto-suficientes e produtores de um excedente líquido -na forma de metais preciosos- que se transferia periodicamente para a Metrópole.

Sendo a Espanha o centro de uma inflação que chegou a propagar-se por toda a Europa, não é de estranhar que o nível geral de preços tenha sido persistentemente mais elevado nesse país que em seus vizinhos, o que necessariamente teria de provocar um aumento de importações e uma diminuição de exportações. Em conseqüência, os metais preciosos que a Espanha recebia da América sob a forma de transferências unilaterais provocavam um fluxo de importação de efeitos negativos, sobre a produção interna, e altamente estimulante para as demais economias européias.

O abastecimento de manufaturas das grandes massas de população indígena continuou a basear-se no artesanato local, o que retardou a transformação das economias de subsistência preexistentes na região.

Cabe portanto admitir que um dos fatores do êxito da empresa colonizadora agrícola portuguesa foi a decadência mesma da economia espanhola, a qual se deveu principalmente à descoberta precoce dos metais preciosos.






DESARTICULAÇÃO DO SISTEMA

O quadro político-econômico dentro do qual nasceu e progrediu de forma surpreendente a empresa agrícola em que assentou a colonização do Brasil foi profundamente modificado pela absorção de Portugal na Espanha. A guerra que contra este último país promoveu a Holanda, durante esse período, repercutiu profundamente na colônia portuguesa da América. A começos do séc. XVII os holandeses controlavam praticamente todo o comercio dos países europeus realizado por mar.

A luta pelo controle do açúcar torna-se, destarte, uma das razões de ser da guerra sem quartel que promovem os holandeses contra a Espanha. E um dos episódios dessa guerra foi a acupação pelos batavos, durante um quarto de século, de grande parte da região produtora de açúcar no Brasil.

Durante a permanência no Brasil, os holandeses adquiriram o conhecimento de todos os aspectos técnicos e organizacionais da indústria açucareira. Esses conhecimentos vão constituir a base para a implantação e desenvolvimento de uma indústria concorrente, de grande escala, na região do Caribe. A partir desse momento, estaria perdido o monopólio, que nos três quartos de século anteriores se assentara na identidade de interesse entre os produtores portugueses e os grupos financeiros holandeses que controlavam o comércio europeu. No terceiro quartel do século XVIII os preços do açúcar estarão reduzidos à metade e persistirão nesse nível relativamente baixo durante todo o século seguinte.






AS COLÔNIAS DE POVOAMENTO DO HEMISFÉRIO NORTE

O principal acontecimento da história americana no século XVII foi, para o Brasil, o surgimento de uma poderosa economia concorrente no mercado dos produtos tropicais. O advento dessa economia decorreu, em boa medida, do debilitamento da potência militar espanhola na primeira metade do século XVII, debilitamento esse observado de perto pelas três potências cujo poder crescia na mesma época: Holanda, França e Inglaterra.

A colonização de povoamento que se inicia na América no século XVII constitui, portanto, seja uma operação com objetivos políticos, seja uma forma de exploração de mão-de-obra européia que um conjunto de circunstâncias tornara relativamente barata nas Ilhas Britânicas.

A Inglaterra do século XVII apresentava um considerável excedente da população, graças as profundas modificações de sua agricultura iniciadas no século anterior.

O início dessa colonização de povoamento no século XVII are uma etapa nova na história da América. Em seus primeiros tempos essas colônias acarretaram vultuosos prejuízos para companhias que a organizavam.

Por todos os meios procurava-se induzir as pessoas que haviam cometido qualquer crime ou mesmo contravenção a vender-se para trabalhar na América em vez de ir para o cárcere. Contudo o suprimento de mão- de- obra deveria ser insuficiente pois a prática do rapto de adultos e crianças tendeu a transformar-se em calamidade pública nesse país. Por esse e outros métodos a população européia das Antilhas cresceu intensamente, e só a Ilha de Bordados chegou a ter, em 1634, 37.200 habitantes dessa origem.

Na medida em que a agricultura tropical - particularmente a do fumo - transformava-se num êxito comercial, cresciam as dificuldades apresentadas pelo abastecimento de mão-de-obra européia.

As colônias de povoamento destas regiões, com efeito, resultaram ser simples estações experimentais para a produção de artigos de potencialidade econômica ainda incerta. Superada essa etapa de incerteza, as invenções maciças exigidas pelas grande plantações escravistas demonstraram ser negócio muito vantajoso.

A partir desse momento se modifica o curso da colonização antilhana, e essa modificação será de importância fundamental para o Brasil. A idéia original de colonização dessas regiões tropicais, à base de pequena propriedade, excluída per se toda cogitação em torno à produção de açúcar. Dentre os produtos tropicais, mais que qualquer outro, este era incompatível com o sistema da pequena propriedade.

A essas diferenças de estrutura econômica teriam necessariamente de corresponder grandes disparidades de comportamento dos grupos sociais dominantes nos dois tipos de colônias. Nas Antilhas inglesas os grupos dominantes estavam intimamente ligados a poderosos grupos financeiros da Metrópole e tinham inclusive uma enorme influencia no parlamento britânico. Esse entrelaçamento de interesses inclinava os grupos que dirigiam a economia antilhana a considera-la exclusivamente como parte integrante de importantes empresas manejadas da Inglaterra. As colônias setentrionais, ao contrário, eram dirigidas por grupos ligados uns a interesses comerciais em Boston e Nova York - os quais freqüentemente entrava em conflito com os interesses metropolitanos - e outros representativos de populações agrícolas praticamente sem qualquer afinidade de interesses com a Metrópole. Essa independência dos grupos dominantes vis-à-vis da Metrópole teria de ser um fator de fundamental importância para o desenvolvimento da colônia, pois significava que nela havia órgãos capazes de interpretar seus verdadeiros interesses e não apenas de refletir as ocorrências do centro econômico dominante.






CONSEQÜÊNCIAS DA PENETRAÇÃO DO AÇÚCAR NAS ANTILHAS

Na medida que a agricultura tropical se tornava um sucesso comercial, principalmente o fumo, cresciam as dificuldades apresentadas pelo abastecimento de mão-de-obra européia. Do ponto de vista das companhias interessadas no comércio das novas colônias, a solução natural do problema estava na introdução da mão-de-obra escrava africana. Na Virgínia aonde as terras não estavam todas divididas em mãos de pequenos produtores, a formação de grandes unidades agrícolas se desenvolveu mais rapidamente. Surge assim uma situação totalmente nova no mercado de produtos tropicais: uma intensa concorrência entre regiões que exploram mão-de-obra escrava em grandes unidades produtivas, e regiões de pequenas propriedades e mão-de-obra européia. As colônias de povoamento destas regiões resultaram ser simples estações experimentais para produção de artigos de potencialidade comercial ainda incerta. Superada essa etapa de incerteza, as inversões maciças exigidas pelas grandes plantações escravistas demonstram ser negocio muito vantajoso.

A partir deste momento se modifica o curso da colonização antilhana, e essa modificação será de importância fundamental para o Brasil. A idéia original de colonização dessas regiões tropicais, à base de pequena propriedade, excluía per se toda cogitação em torno à produção de açúcar. Dentre os produtos tropicais, mais que qualquer outro, este era incompatível com o sistema de pequenas propriedades. Nesta primeira fase da colonização agrícola não-portuguesa das terras americanas, aparentemente se dava por assentado que ao Brasil cabia o monopólio da produção açucareira. Às colônias antilhanas ficavam reservados os demais produtos tropicais. A razão de ser dessa divisão de tarefas derivada dos próprios objetivos políticos da colonização antilhana, onde franceses e ingleses pretendiam reunir fortes núcleos de população européia. Sem embargo, esses objetivos políticos tiveram de ser abandonados sob a forte pressão de fatores econômicos.

As colônias do norte dos EUA se desenvolveram, assim, na segunda metade do séc. XVII e primeira do séc XVIII, como parte integrante de um sistema maior dentro do qual o elemento dinâmico são as regiões antilhanas produtoras de artigos tropicais. O fato que as duas partes principais do sistema - a região produtora do artigo básico de exportação; e a região que abastecia a primeira - hajam estado separadas é de fundamental importância para explicar o desenvolvimento subsequente de ambas.






ENCERRAMENTO DA ETAPA COLONIAL

A partir da segunda metade do séc. XVII, será profundamente marcada pelo novo rumo que toma Portugal como potência colonial. Na época que esteve ligada a Espanha, perdeu esse país o melhor de seus entrepostos orientais, ao mesmo tempo que a melhor parte da colônia americana era ocupada pelos holandeses. Ao recuperar a independência Portugal encontro-se em posição extremamente débil, pois a ameaça da Espanha - que por mais de um quarto de século não reconheceu essa independência - pesava permanentemente sobre o território metropolitano. Por outro lado, o pequeno reino, perdido o comércio oriental e desorganizado o comércio do açúcar, não dispunha de meios para defender o que lhe sobrará das colônias numa época de crescente atividade imperialista. A neutralidade em face das grandes potências era impraticável. Portugal compreendeu, assim, que para sobreviver como metrópole colonial deveria ligar o seu destino a uma grande potência, o que significaria necessariamente alienar parte de sua soberania. Os acordos concluídos com a Inglaterra em 1642-54-61 estruturam essa aliança que marcará profundamente a vida política e econômica de Portugal e do Brasil durante os dois séculos seguintes.








ECONOMIA ESCRAVISTA DE AGRICULTURA TROPICAL





CAPITALIZAÇÃO E NÍVEL DE RENDA NA COLÔNIA AÇUCAREIRA

O rápido desenvolvimento da indústria açucareira , malgrado as enormes dificuldades decorrentes do meio físico , da hostilidade do silvícola e do custo dos transportes , indica claramente que o esforço do governo português se concentrara nesse setor . O privilegio , outorgado ao donatário , de só ele fabricar moenda e engenho de água , denota ser a lavoura do açúcar a que tinha especialmente em mira introduzir.

Observada de uma perspectiva ampla, a colonização do séc. XVI surge fundamentalmente ligada a atividade açucareira. Aí onde a produção de açúcar falhou - caso de São Vicente - o pequeno núcleo colonial conseguiu substituir graças à relativa abundância de mão-de-obra indígena.

O fato de que desde o começo da colonização algumas comunidades se hajam especializado na captura de escravos indígenas põe em evidência a importância da mão-de-obra nativa na etapa inicial de instalação da colônia. No processo de acumulação de riqueza quase sempre o esforço inicial é relativamente o maior. A mão-de-obra africana chegou para a expansão da empresa, que já estava instalada. É quando a rentabilidade do negócio está assegurada que entram em cena , na escala necessária, os escravos africanos: base de um sistema de produção mais eficiente e mais densamente capitalizado.






FLUXO DE RENDA E CRESCIMENTO

O que mais singulariza a economia escravista é, seguramente, a forma como nela opera o processo de formação de capital. O empresário açucareiro teve, no Brasil, desde o começo, que operar em escala relativamente grande. As condições do meio não permitiam pensar em pequenos engenhos, como fora o caso das ilhas do Atlântico. Cabe deduzir, por tanto, que os capitais foram importados. Mas o que se importava, na etapa inicial, eram os equipamentos e a mão-de-obra especializada. A introdução do trabalhador africano não constitui modificação fundamental pois apenas veio substituir outro escravo menos eficiente e de recrutamento mais incerto.

Na segunda metade do séc. XVII, quando se desorganizou o mercado do açúcar e teve inicio a forte concorrência antilhana, os preços se reduziram a metade. Contudo, os empresários brasileiros fizeram o possível para manter um nível de produção relativamente elevado.






PROJEÇÃO DA ECONOMIA AÇUCAREIRA: A PECUÁRIA

Pode-se admitir como ponto pacífico, que a economia açucareira constituía um mercado de dimensões relativamente grandes, portanto, atuar como fator altamente dinâmico do desenvolvimento de outras regiões do país. Um conjunto de circunstancia tenderam, sem embargo, a desviar para o exterior em quase sua totalidade esse impulso dinâmico. Em primeiro lugar havia os interesses criados dos exportadores portugueses e holandeses, os quais gozavam dos fretes excepcionalmente baixos que podiam propiciar os barcos que seguiam para colher açúcar. Em segundo estava a preocupação política de evitar o surgimento na colônia de qualquer atividade que concorresse com a economia metropolitana.

Ao expandir-se a economia açucareira, a necessidade de animais de tiro tendeu a crescer mais que proporcionalmente, pois a desvastação das florestas litorâneas obrigava a buscar a lenha a distancia cada vez maiores. Por outro lado, logo se evidenciou a impraticabilidade de criar o gado na faixa litorânea, isto é, dentro das próprias unidades produtoras de açúcar. Os conflitos provocados pela penetração de animais em plantações deve ter sido grandes, pois o próprio governo português proibiu, finalmente, a criação de gado na faixa litorânea. E foi a separação das duas atividades econômicas - a açucareira e a criatória - que deu lugar ao surgimento de uma economia dependente na própria região nordestina.






FORMAÇÃO DO COMPLEXO ECONÔMICA NORDESTINO

As formas que assumem os dois sistemas da economia nordestina - o açucareiro e o criatório - no lento processo de decadência que se inicia na segunda metade do séc. XVII, constitui elementos fundamentais na formação do que no séc. XX viria a ser a economia brasileira. Vimos jà que as unidades produtivas, tanto na economia açucareira como na criatória, tendiam a preservar sua forma original seja nas etapas de expansão seja nas de contração. Por um lado o crescimento era de caráter puramente extensivo, mediante a incorporação de terra e mão-de-obra, não implicando modificação estruturais que repercutissem nos custos de produção e por tanto na produtividade. Por outro lado, a reduzida expressão dos custos monetários - isto é, a pequena proporção da folha de salários e da compra de serviços a outras unidades produtivas - tornava a economia enormemente resistente aos efeitos a curto prazo de uma baixa de preços. Convinha continuar operando, não obstante os preços sofressem uma forte baixa, pois os fatores de produção não tinham uso alternativo. Como se diz hoje em dia, a curto prazo a oferta era totalmente inelástica. Contudo, seus efeitos a curto prazo de uma contração da procura eram muito parecidos nas economias açucareira e criatória, a longo prazo as diferenças eram substanciais.




CONTRAÇÃO ECONÔMICA E EXPANSÃO TERRITORIAL

O séc. XVII constitui a etapa de maiores dificuldades na vida política da colônia. Em sua primeira metade, o desenvolvimento da economia açucareira foi interrompido pelas invasões holandesas. Nessa etapa os prejuízos são bem maiores para Portugal que para o próprio Brasil, teatro das operações de guerra. A administração holandesa se preocupou em reter na colônia parte das rendas fiscais proporcionadas pelo açúcar, o que permitiu um desenvolvimento mais intenso da vida urbana. Do ponto de vista do comércio e do fisco portugueses, entretanto, os prejuízos deveriam ser consideráveis. Simonsen estimou em vinte milhões de libras o valor das mercadorias subtraídas ao comércio lusitano. Isso concomitantemente com gastos militares vultosos. Encerrada a etapa militar, tem inicio a baixa nos preços do açúcar provocada pela perda do monopólio. Na segunda metade do século a rentabilidade da colônia baixou substancialmente, tanto para o comércio como para o erário lusitanos, ao mesmo tempo que cresciam suas próprias dificuldades de administração e defesa.








ECONOMIA ESCRAVISTA MINEIRA





POVOAMENTO E ARTICULAÇÃO DAS REGIÕES MERIDIONAIS

Que poderia Portugal esperar da extensa colônia sul-americana, que se empobrecia a cada dia, crescendo ao mesmo tempo seus gastos de manutenção? Era mais ou menos evidente que da agricultura tropical não se podia esperar outro milagre similar ao do açúcar. Iniciara-se uma intensa concorrência no mercado de produtos tropicais, apoiando-se os principais produtores - colônias francesas e inglesas - nos respectivos mercados metropolitanos. Para um observador de fins do séc. XVII, os destinos da colônia deveriam parecer incertos. Em Portugal compreendeu-se claramente que a única saída estava na descoberta de metais preciosos. Retrocedia-se, assim, à idéia primitiva de que as terras americanas só se justificavam economicamente se chegassem a produzir ditos metais. Os governantes portugueses cedo se deram conta do enorme capital que, para a busca de minas, representavam os conhecimentos que do interior do país tinham os homens do planalto de Piratininga. Com efeito, se estes já não haviam descobertos o ouro em suas entradas pelos sertões, era por falta de conhecimentos técnicos. A ajuda técnica que então receberam da metrópole foi decisiva.






FLUXO DA RENDA

A base geográfica da economia mineira estava situada numa vasta região compreendida entre a serra da Mantiqueira, no atual Estado de Minas, e a região de Cuiabá, no Mato Grosso, passando por Goiás. Em algumas regiões a curva de produção subiu e baixou rapidamente provocando grandes fluxos e refluxos de população; noutras, essa curva foi menos abrupta tornando-se possível um desenvolvimento demográfico mais regular e a fixação definitiva de núcleos importantes de população. A renda média dessa economia, isto é, sua produtividade média, é algo que dificilmente pode se definir. Em dados momentos deveria alcançar pontos altíssimos em uma sub-região, e, quanto mais altos fossem esses pontos, maiores seriam as quedas subseqüentes. Os depósitos de aluvião se esgotam tanto mais rapidamente quanto é mais fácil sua exploração. Dessa forma, as regiões mais “ricas” se incluem entre as de vida produtiva mais curta.






REGRESSÃO ECONÔMICA E EXPANSÃO DA ÁREA DE SUBSISTÊNCIA

Não se havendo criado nas regiões mineiras formas permanentes de atividades econômicas - à exceção de alguma agricultura de subsistência - era natural que, com o declínio da produção de ouro, viesse uma rápida e geral decadência. Na medida em que se reduzia a produção, as maiores empresas se iam descapitalizando e desagregando. A reposição da mão de obra escrava já não se podia fazer, e muitos empresários de lavras, com o tempo, se foram reduzindo a simples faiscadores. Dessa forma, a decadência se processava através de uma lenta diminuição do capital aplicado no setor mineratório. A ilusão de que uma nova descoberta poderia vir a qualquer momento induzia o empresário a persistir na lenta destruição de seu ativo, antes que transferir algum saldo liquidável para outra atividade econômica. Todo o sistema se ia assim atrofiando, perdendo vitalidade, para finalmente desagregar-se numa economia de subsistência.






ECONOMIA DE TRANSIÇÃO PARA O TRABALHO ASSALARIADO





O MARANHÃO E A FALSA EUFORIA DA ÉPOCA COLONIAL

O ultimo quartel do século XVIII constitui uma nova etapa de dificuldades para a colônia. as exportações, que em torno de 1760 se haviam aproximado de cinco milhões de libras, pouco excedem em média, nos últimos vinte e cinco anos do século, os três milhões. O açúcar enfrenta novas dificuldades e o valor total de suas vendas desce a níveis tão baixos como não se havia conhecido nos dois séculos anteriores. As exportações de ouro, durante esse período, promediaram pouco mais de meio milhão de libras. Enquanto isso a população havia subido a algo mais de três milhões de habitantes. A renda per capita, ao terminar o século, provavelmente não seria superior a cinqüenta dólares de poder aquisitivo atual - admitida uma população livre de dois milhões - sendo esse provavelmente o nível de renda mais baixo que haja conhecido o Brasil em todo período colonial.




PASSIVO COLONIAL, CRISE FINANCEIRA E INSTABILIDADE POLÍTICA

A repercussão, no Brasil, dos acontecimentos políticos da Europa de fins do século XVIII e começo do seguinte, se por um lado acelerou a evolução política do pais, por outro contribuiu para prolongar a etapa de dificuldades econômicas que se iniciara com a decadência do ouro. Ocupado o reino português pelas tropas francesas,desapareceu o entreposto que representava Lisboa para o comercio da colônia, tornando-se indispensável o contato direto desta com os mercados ainda acessíveis. A “abertura dos portos” decretada ainda em 1808, resultava de uma imposição de acontecimentos. Vem em seguida os tratados de 1810 que transformaram a Inglaterra em potência privilegiada, com direitos de extraterritorialidade e tarifas preferenciais a níveis extremamente baixos, tratados esses que constituirão, em toda a primeira metade do século, uma seria limitação à autonomia do governo brasileiro no setor econômico. A separação definitiva de Portugal em 1822 e o acordo pelo qual a Inglaterra consegue consolidar sua posição em 1827 são outros dois marcos fundamentais nessa etapa de grandes acontecimentos políticos. Por ultimo cabe referir a eliminação do poder pessoal de Dom Pedro I, em 1831, e a conseqüente ascensão definitiva ao poder da classe colonial dominante formada pelos senhores da grande agricultura de exportação.






CONFRONTO COM O DESENVOLVIMENTO DOS EUA

As observações anteriores põem em evidencia as dificuldades criadas indiretamente, ou agravadas, pelas limitações impostas ao governo brasileiro nos acordos comerciais com a Inglaterra, firmados entre 1810 e 1827. Sem embargo, não parece ter fundamento a critica corrente que se faz a esses acordos, segundo a qual eles impossibilitaram a industrialização do Brasil nessa época, retirando das mãos do governo o instrumento do protecionismo. Observando atentamente o que ocorreu na época, comprova-se que a economia brasileira atravessou uma fase de fortes desequilíbrio, determinados principalmente pela baixa relativa dos preços das exportações e pela tentativa do governo, cujas responsabilidades se haviam avolumado com a independência política, de aumentar sua participação no dispêndio nacional. A exclusão do entreposto português, as maiores facilidades de transporte e comercialização - devidas ao estabelecimento de inúmeras firmas inglesas no pais - provocaram uma baixa relativa dos preços das importações e um rápido crescimento da procura de artigos importados. criou-se, assim, uma forte pressão sobre a balança de pagamentos, que teria de repercutir na taxa de cambio. Por outro lado, conforme indicamos, a forma como se financiou o déficit do governo central veio reforçar enormemente essa pressão sobre a taxa de cambio. Na ausência de uma corrente substancial de capitais estrangeiros ou de uma expansão adequada das exportações, a pressão teve de resolver-se em depreciação externa da moeda, o que provocou por seu lado um forte aumento relativo dos preços dos produtos importados. Se houvesse adotado, desde o começo, uma tarifa geral de 50% ad valorem, possivelmente o efeito protecionista não tivesse sido tão grande como resultou ser com a desvalorização da moeda.






DECLÍNIO A LONGO PRAZO DO NÍVEL DE RENDA: PRIMEIRA METADE DO SÉCULO XIX

Condição básica para o desenvolvimento da economia brasileira, na primeira metade do século XIX, teria sido a expansão de suas exportações. Fomentar a industrialização nessa época, sem o apoio de uma capacidade para importar em exportação, seria tentar o impossível num pais totalmente carente de base técnica. As iniciativas de industria siderúrgica da época de Dom João VI fracassaram não exatamente por falta de proteção, mas simplesmente porque nenhuma industria cria mercado para si mesma, e o mercado para produtos siderúrgicos era praticamente inexistente .O pequeno consumo dos pais estavam declínio com a decadência da mineração, e espalhava-se pelas distintas províncias exigindo uma complexa organização comercial. A industrialização teria de começar por aqueles produtos que já dispunham de um mercado de certa magnitude, como era o caso dos tecidos, única manufatura cujo mercado se estendia inclusive a população escrava. Ocorre, porem, que a forte baixa dos preços dos tecidos ingleses, a que nos referimos, tornou difícil a própria subsistência do pouco artesanato têxtil que existia no pais. A baixa de preços foi de tal ordem que se tornava praticamente impossível defender qualquer industria local por meio de tarifas. Houvera sido necessário estabelecer cotas de importação. Cabe reconhecer, entretanto, que dificultar a entrada no pais de um produto cujo preço apresentavam tão grande declínio seria reduzir substancialmente a renda real da população numa etapa em que esta atravessava grandes dificuldades. Por ultimo e necessário não esquecer que a instalação de uma industria têxtil moderna em contraria serias dificuldades, pois os ingleses impediam por todos os meios a seu alcance a exportação de maquinas.






GESTAÇÃO DA ECONOMIA CAFEEIRA

Dificilmente um observador que estudasse a economia brasileira pela metade do século XIX chegaria a perceber a amplitude das transformações que nela se operariam no correr dos meio século que se iniciavam. Haviam três quartos de século em que a característica dominante fora a estagnação ou a decadência. Ao rápido crescimento demográfico de base migratória dos três primeiros quartéis do século XVIII sucedera um crescimento vegetativo relativamente lento no período subsequente . As fases de progresso, como a que conheceu o Maranhão, haviam sido de efeitos locais, sem chegar a afetar o panorama geral. A instalação de um rudimentar sistema administrativo, a criação de um banco nacional e umas poucas outras iniciativas governamentais constituíam - ao lado da preservação da unidade nacional - o resultado liquido desse longo período de dificuldades. As novas técnicas criadas pela revolução industrial escassamente haviam penetrado no pais, e quando o fizeram foi sob a forma de bens ou serviços de consumo sem afetar a estrutura do sistema produtivo. Por ultimo o problema nacional básico - a expansão da força de trabalho do pais - encontrava-se em verdadeiro impasse : estancara-se a tradicional fonte africana sem que se vislumbrasse uma solução alternativa.








O PROBLEMA DA MÃO-DE-OBRA



I - OFERTA INTERNA POTENCIAL

Pela metade do séc. XIX, a força de trabalho da economia brasileira estava basicamente consthtuída por uma massa de escravos que talvez não alcançasse dois milhões de indivíduos. Qualquer empreendimento que se pretendesse realizar teria de chocar-se com a inelasticidade da oferta de trabalho. O primeiro senso demográfico, realizado em 1872, indica que nesse ano existiam no Brasil aproximadamente 1,5 milhão de escravos. Tendo em conta que o numero de escravos, no começo do século, era de algo mais de 1 milhão, e que nos primeiros 50 anos do século XIX se importou muito provavelmente mais de ½ milhão deduz-se que a taxa de mortalidade era superior à de natalidade. É interessante observar a evolução diversa que teve o estoque de escravo dos dois principais países escravistas do continente: os EUA e o Brasil. Ambos os países começaram o século XIX com um estoque de aproximadamente 1 milhão de escravos. As importações brasileiras, no correr do século, foram cerca de 3 vezes maiores do que as norte-americanas. Sem embargo, a iniciar-se a Guerra de Secessão, os EUA tinham uma força de trabalho escrava de cerca de 4 milhões e o Brasil na mesma época algo como 1,5 milhão. A explicação desse fenômeno está na elevada taxa de crescimento vegetativo da população escrava norte-americana, grande parte da qual vivia em propriedades relativamente pequenas, nos Estados do chamado Old South. As condições de alimentação e de trabalho nesses Estados deveriam ser relativamente favoráveis, tanto mais que, com a elevação permanente dos preços dos escravos seus proprietários passaram a derivar uma renda do incremento natural dos mesmos.






O PROBLEMA DA MÃO-DE-OBRA



II - A IMIGRAÇÃO EUROPÉIA

Como solução alternativa do problema da mão-de-obra sugeria-se fomentar uma corrente de imigração européia. O espetáculo do enorme fluxo de população que espontaneamente se dirigia da Europa para os EUA parecia indicar a direção que cabia tomar. E, com efeito, já antes da independência começara, por iniciativa governamental, a instalação de “colônias” de imigrantes europeus. Entretanto, essas colônias que, as palavras de Mauá, “pesavam com a mão de ferro” sobre as finanças do país, vegetavam raquíticas sem contribuir em coisa alguma para alterar os termos do problema da inadequada oferta de mão-de-obra. E a questão fundamental era aumentar a oferta de força de trabalho disponível para a grande lavoura, denominação brasileira da época correspondente à plantation dos ingleses. Ora, não existia nenhum precedente, no continente, de imigração de origem européia de mão de obra livre para trabalhar em grandes plantações. As dificuldades que encontraram os ingleses para solucionar o problema da falta de braços, em suas plantações da região do Caribe são bem conhecidas. É sabido, por exemplo, que grande parte dos africanos aprendidos nos navios que traficavam para o Brasil eram reexportados para as Antilhas como trabalhadores “livres”.






O PROBLEMA DA MÃO-DE-OBRA



III - TRANSUMÂNCIA AMAZÔNICA

Além da grande corrente migratória de origem européia para a região cafeeira, o Brasil conheceu no ultimo quartel do século XIX e primeiro decênio deste um outro grande movimento de população: da região nordestina para a amazônica.

A economia amazônica entrará em decadência desde fins do século XVIII. Desorganizado o engenhoso sistema de exploração da mão-de-obra indígena estruturado pelos jesuítas, a imensa região reverteu a um estado de letargia econômica. Em pequena zona do Pará se desenvolveu uma agricultura de exportação que seguiu de perto a evolução da maranhense, com a qual estivera integrada comercialmente através dos negócios da companhia de comercio criada na época de Pombal. O algodão e o arroz aí tiveram sua etapa de prosperidade, durante as guerras napoleonicas, sem contudo jamais alcançar cifras de significação para conjunto do país. A base da economia da bacia amazônica eram sempre as mesmas especiarias extraídas da floresta que haviam tornado possível a penetração jesuítica na extensa região. Desses produtos extrativos o cacau continuava a ser mais importante. A forma como era produzido, entretanto, não permitia que o produto alcançasse maior significação econômica. A exportação anual média, nos anos 40 do século passado, foi de 2.900 toneladas, no decênio seguinte alcança 3.500 e nos anos 60 baixa para 3.300. O aproveitamento dos demais produtos da floresta deparava-se com a mesma dificuldade: a quase inexistência de população e a dificuldade de organizar a produção com base no escasso elemento indígena local.






O PROBLEMA DA MÃO-DE-OBRA




IV - ELIMINAÇÃO DO TRABALHO ESCRAVO

Já observamos que, na segunda metade do século XIX, não obstante a permanente expansão do setor de subsistência, a inadequada oferta de mão-de-obra constitui o problema central da economia brasileira. Vimos também como este problema foi resolvido nas duas regiões em rápida expansão econômica: o planalto paulista e a bacia amazônica. Sem embargo, não seria avisado deixar de lado um outro aspecto desse problema, que aos contemporâneos pareceu serem realidade de todos os mais fundamental: a chamada “questão do trabalho servil”.

A abolição da escravatura, à semelhança de uma “reforma agraria”, não constitui per se nem destruição nem criação de riqueza. Constitui simplesmente numa redistribuição da propriedade de uma coletividade. A aparente complexidade desse problema deriva de que a propriedade da força de trabalho, ao passar do senhor de escravos para o indivíduo, deixa de ser um ativo que figura numa contabilidade para constituir-se em simples virtualidade. Do ponto de vista econômico, o aspecto fundamental desse problema radica no tipo de repercussões que a redistribuição da propriedade terá na organização da produção, no aproveitamento dos fatores disponíveis, na distribuição da renda e na utilização final desse renda.

NÍVEL DE RENDA E RITMO DE CRESCIMENTO NA SEGUNDA METADE DO SÉCULO XIX

Considerada em conjunto, a economia brasileira parece haver alcançada uma taxa relativamente alta de crescimento na segunda metade do século XIX. Sendo o comercio exterior o setor dinâmico do sistema, é no seu comportamento que está a chave do processo de crescimento nessa etapa. Comparando os valores médios correspondentes aos anos 90 com os relativos ao decênio dos 40, depreende-se que o quantum das exportações brasileiras aumentou 214%. Esse aumento do volume físico da exportação foi acompanhado de uma elevação dos preços médios dos produtos exportados de aproximadamente 46%. Por outro lado, observa-se uma redução de cerca de 8% no índice de preços dos produtos importados, sendo, portanto, de 58% a melhora na relação de preços dk intercâmbio externo. Um aumento de 214% do quantum das exportações acompanhado de uma melhora de 58% na relação de preços do intercâmbio, significa um incremento de 396% na renda real gerada pelo setor exportador.






O FLUXO DE RENDA NA ECONOMIA DE TRABALHO ASSALARIADO

O fato de maior relevância ocorrido na economia brasileira no ultimo quartel do século XIX foi, sem lugar à duvida, o aumento da importância relativa do setor assalariado. A expansão anterior se fizera, seja através do crescimento do setor escravista, seja pela multiplicação dos núcleos de subsistência. Em um e outro caso o fluxo de renda, real ou virtual, circunscrevia-se a unidades relativamente pequenas, cujos contatos externos assumiam caráter internacional no primeiro caso e eram de limitadíssimo alcance no segundo. A nova expansão tem lugar no setor que se baseia no trabalho assalariado. O mecanismo desse nova sistema, cuja a importância relativa cresce rapidamente, apresenta diferenças profundas com respeito à antiga economia exclusivamente de subsistência. Essa ultima, como vimos , caracteriza-se por um elevado grau de estabilidade, mantendo-se imutável sua estrutura tanto nas etapas de crescimento como nas de decadência. A dinâmica do novo sistema é distinta. Convém analiza-la detidamente, se pretendemos compreender as transformações estruturais que levariam, na primeira metade do século atual, à formação no Brasil de uma economia de mercado interno.






A TENDÊNCIA AO DESEQUILÍBRIO EXTERNO

O funcionamento do novo sistema econômico, baseado no trabalho assalariado, apresentava uma serie de problemas que, na antiga economia exportadora-escravista, apenas se haviam esboçado. Um desses problemas - alias comum a outras economias de características similares - consistiria na impossibilidade de adaptar-se às regras do padrão-ouro, base de toda a economia internacional no período que aqui nos ocupa. O principio fundamental do sistema do padrão-ouro radicava em que cada país deveria dispor de uma reserva metálica - ou de divisas conversíveis, na variante mais corrente, - suficientemente grande para cobrir os deficits ocasionais de sua balança de pagamentos. É fácil compreender que uma reserva metálica - estivesse ela amoedada ou não - constituía uma inversão improdutiva que era na verdade a contribuição de cada país para o financiamento a curto prazo das trocas internacionais. A dificuldade estava em que cada país deveria contribuir para este financiamento em função de sua participação no comercio internacional e da amplitude das flutuações de sua balança de pagamentos.






A DEFESA DO NÍVEL DE EMPREGO E A CONCENTRAÇÃO DA RENDA

Vimos que a existência de uma reserva de mão-de-obra dentro do país , reforçada pelo fluxo imigratório , permitiu que a economia cafeeira se expandisse durante um longo período sem que os salários reais apresentassem tendência para a alta . A elevação do salário médio no país refletia a aumento de produtividade que se ia alcançando através da simples transferência de mão-de-obra da economia estacionária de subsistência para a economia exportadora . As melhoras de produtividade obtidas dentro da própria economia exportadora , essas o empresário podia retê-las , pois nenhuma pressão se formava dentro do sistema que o obrigasse a transferi-las total ou parcialmente para os assalariados . Também assinalamos que esses aumentos de produtividade do setor exportador eram de natureza puramente econômica, e refletiam modificações nos preços do café . Para que houvesse aumento na produtividade física , seja da mão-de-obra ,seja da terra , era necessário que o empresário aperfeiçoasse os processos de cultivo ou intensificasse a capitalização , isto é , aplicasse maior quantidade de capital por unidade de terra ou de mão-de-obra .






A DESCENTRALIZAÇÃO REPUBLICANA E A FORMAÇÃO DE NOVOS GRUPOS DE PRESSÃO

Observando mais detidamente o processo de depreciação cambial , depreende-se facilmente que as transferências de renda assumiam várias formas . Por outro lado havia transferências entre o setor de subsistência e o exportador , em benefício deste último , pois os preços que pagava o setor de subsistência pelo que imputava cresciam relativamente aos preços que pagava o setor exportador pelos produtos de subsistência . Por outro lado havia importantes transferências dentro do próprio setor exportador , uma vez que os assalariados rurais empregados neste último, se bem que produzissem boa parte de seus próprios alimentos , recebiam em moeda a principal parte de seu salário e consumiam uma série de artigos de uso corrente que eram importados ou semimanufaturados no país com matéria-prima importada . Os núcleos mais prejudicados eram , entretanto , as populações urbanas . Vivendo de ordenados e salários e consumindo grandes quantidades de artigos importados , inclusive alimentos , o salário real dessas populações era particularmente afetado pelas modificações da taxa cambial .







ECONOMIA DE TRANSIÇÃO PARA UM SISTEMA INDUSTRIAL





A CRISE DA ECONOMIA CAFEEIRA

No último decênio do século XIX criou-se uma situação excepcionalmente favorável à expansão da cultuara do café no Brasil. Por outro lado a oferta não-brasileira atravessou uma etapa de dificuldades , sendo a produção asiática grandemente prejudicada por enfermidades , que praticamente destruíram os cafezais da ilha do Ceilão. Por outro lado , com a descentralização republicana o problema da imigração passou às mãos dos Estados , sendo abordado de forma muito mais ampla pelo governo do Estado de São Paulo, vale dizer, pela própria classe dos fazendeiros de café. Finalmente , o efeito estimulante da grande inflação de crédito desse período beneficiou duplamente a classe de cafeicultores : proporcionou o crédito necessário para financiar a abertura de novas terras e elevou os preços dos produtos em moedas nacional com a depreciação cambial. A produção brasileira , que havia aumentado de 3,7 milhões de sacas (de 60 Kg) em 1880-81 para 5,5 em 1890-91, alcançaria em 1901-02 16,3 milhões .






OS MECANISMOS DE DEFESA E A CRISE DE 1929

Ao deflagrar-se a crise mundial a situação da economia cafeeira se apresentava como segue . A produção , que se encontrava a altos níveis , teria de seguir crescendo , pois os produtores haviam continuado a expandir as plantações até aquele momento . Com efeito , a produção máxima seria alcançada em 1933 , ou , seja , no ponto mais baixo da depressão , como reflexo das grandes plantações de 1927-28 . Por outro lado , era totalmente impossível obter crédito no exterior para financiar a retenção de novos estoques , pois o mercado internacional de capitais se encontrava em profunda depressão e o crédito do governo desaparecera com a evaporação das reservas .

A grande acumulação de estoques de 1929, a rápida liquidação das reservas metálicas brasileiras e as precárias perspectivas de financiamento das grandes safras previstas para o futuro , aceleraram a queda do preço internacional do café iniciada conjuntamente com a de todos os produtos primários em fins de 1929 . Essa queda assumiu proporções catastróficas, pois, de setembro de 1929 a esse mesmo mês de 1931, a baixa foi de 22,5 centavos de dólar por libra para 8 centavos .






DESLOCAMENTO DO CENTRO DINÂMICO

Vimos como a política de defesa do setor cafeeiro contribuiu para manter a procura efetiva e o nível de emprego nos outros setores da economia . Vejamos agora o que significou isso como pressão sobre a estrutura do sistema econômico . O financiamento dos estoques de café com recursos externos evitava , conforme indicamos , o desequilíbrio na balança de pagamentos . Com efeito, a expansão das importações induzida pela inversão em estoques de café dificilmente poderia exceder o valor desses estoques, os quais tinham uma cobertura cambial de 100 por cento .

Suponhamos que cada mil-réis invertido em estoques de café se multiplicasse, de acordo com o mecanismo já exposto, por 3, e criasse assim uma renda final de 3 mil-réis .Seria necessário que as importações induzidas pelo aumento da renda global ultrapassassem a terça parte desse aumento para que se criasse um desequilíbrio externo . Por uma série de razões fáceis de perceber, esse tipo de desequilíbrio não se concretiza sem que interfiram outros fatores, pois a propagação da renda dentro da economia reflete em grande parte as possibilidades que tem essa economia de satisfazer ela mesma as necessidades decorrentes do aumento da procura . No caso limite de que essas possibilidades fossem nulas, isto é, de que todo o aumento da procura tivesse de ser atendido com importações, o multiplicador seria 1, crescendo a renda global apenas no montante em que tivessem crescido as exportações. Neste caso não haveria nenhuma possibilidade de desequilíbrio, pois as importações induzidas seriam exatamente iguais ao aumento das exportações .




O DESEQUILÍBRIO EXTERNO E SUA PROPAGAÇÃO

No capítulo anterior se fez referência ao fato de que a baixa do coeficiente de importação havia sido obtida, nos anos trinta, à custa de um reajustamento profundo dos preços relativos . A alta da taxa cambial reduziu praticamente à metade o poder aquisitivo externo da moeda brasileira e, se bem houve flutuações durante o decênio nesse poder aquisitivo , a situação em 1938-1939 era praticamente idêntica à do ponto mais agudo da crise . Esta situação permitira um amplo barateamento relativo nas mercadorias de produção interna , e foi sobre a base desse novo nível de preços relativos que se processou o desenvolvimento industrial dos anos trinta .

Observamos também que a formação de um só mercado para produtores internos e importadores - conseqüência natural do desenvolvimento do setor ligado ao mercado interno - transformou a taxa cambial em um instrumento de enorme importância para todo o sistema econômico . Qualquer modificação , num sentido ou noutro, dessa taxa, acarretaria uma alteração no nível dos preços relativos dos produtos importados e produzidos no país , os quais concorriam em um pequeno mercado. Era perfeitamente óbvio que a eficiência do sistema econômico teria de prejudicar-se com os sobressaltos provocados pelas flutuações cambiais .






REAJUSTAMENTO DO COEFICIENTE DE IMPORTAÇÕES

Ao liberarem-se as importações no após-guerra e ao regularizar-se a oferta externa, o coeficiente de importações subiu bruscamente, alcançando em 1947, 15 por cento. Aos observadores do momento , esse crescimento relativo das importações pareceu refletir apenas a compressão da procura nos anos anteriores. Tratava-se, entretanto , de um fenômeno muito mais profundo. Ao estabelecer-se o nível de preços relativos de 1929, a população novamente pretendeu voltar ao nível relativo de gastos em produtos importados, que havia prevalecido naquela época. Ora, uma tal situação era incompatível com a capacidade para importar. Essa capacidade em 1947 era praticamente idêntica à de 1929, enquanto que a renda nacional havia aumentado em cerca de 50 por cento. Era, portanto, natural de que os desejos de importação manifestados pela população (consumidores e inversionistas) tendessem a superar em escala considerável as reais possibilidades de pagamento no exterior . Para corrigir esse desequilíbrio, as soluções que se apresentavam eram estas : desvalorizar substancialmente a moeda , ou introduzir uma série de controles seletivos das importações. A decisão de adotar a segunda dessas soluções teve profunda significação para o futuro imediato, se bem que foi tomada com aparente desconhecimento de seu verdadeiro alcance. Trata-se de uma relação que teve importância básica na intensificação do processo de industrialização do país .






OS DOIS LADOS DO PROCESSO INFLACIONÁRIO

As observações feitas anteriormente põem em evidência que a aceleração do ritmo de crescimento da economia brasileira no após-guerra está fundamentalmente ligada à política cambial e ao tipo de controle seletivo que se impôs às importações. Mantendo-se baixos os custos dos equipamentos importados enquanto se elevaram os preços internos das manufaturadas produzidas no país, é evidente que aumentava a eficácia marginal das inversões nas indústrias. Não se pode ignorar, entretanto, que um dos fatores que atuam nesse processo era a alta dos preços nas manufaturadas de produção interna . É este um ponto de grande interesse, que vale a pena analisar . Chamamos a atenção para o fato de que os capitais adicionais de que dispuseram os industriais para intensificar suas inversões não foram o fruto de uma simples redistribuição de renda e, portanto, não resultaram do processo inflacionário, isto é, da elevação dos preços. Esses capitais foram criados por assim dizer fora da economia , através do aumento geral de produtividade econômica que advinha da baixa relativa dos preços de importação. Atribuir à inflação um aumento de capitalização da magnitude do que teve lugar no Brasil entre 1948 e 1952 é uma simplificação grosseira do problema que em nada contribui para esclarecê-lo. A experiência de outros países latino-americanos , onde se tem lançado mão amplamente da inflação, demonstra que esse processo não é capaz, por si só, de aumentar a capitalização de forma persistente e efetiva. Contudo seria errôneo querer ignorar o papel que, no após-guerra, desempenhou no Brasil a elevação de preços .


PERSPECTIVA DOS PRÓXIMOS DECÊNIOS

Assim como a segunda metade do século XIX se caracteriza pela transformação de uma economia escravista de grandes plantações em um sistema econômico baseado no trabalho assalariado, a primeira metade do século XX está marcada pela progressiva emergência de um sistema cujo principal centro dinâmico é o mercado interno.

O desenvolvimento econômico não acarreta necessariamente redução da participação do comércio exterior no produto nacional. Nas primeiras etapas do desenvolvimento das regiões de escassa população e abundantes recursos naturais - conforme observamos ao comparar as experiências do Brasil e dos EUA na primeira metade do século XIX - uma rápida expansão do setor externo possibilita uma alta capitalização e abre o caminho à absorção do progresso técnico . Sem embargo, na medida em que uma economia se desenvolve, o papel que nela desempenha o comércio exterior se vai modificando. Na primeira etapa a indução externa constitui o fator dinâmico principal na determinação do nível da procura efetiva. Ao debilitar-se o estímulo externo, todo o sistema se contrai em um processo de atrofiamento. As reações ocorridas na etapa de contração não são suficientes, entretanto, para engendrar transformações estruturais cumulativas em sentido inverso. Se se prolonga a contração da procura externa, tem início um processo de desagregação e a conseqüente reversão a formas de economia de subsistência. Esse tipo de interdependência entre o estímulo externo e o desenvolvimento interno existiu plenamente na economia brasileira até a Primeira Guerra Mundial, e de forma atenuada até fins do terceiro decênio deste século .








Bibliografia

Formação Econômica do Brasil

Celso Furtado

27/02/2008

Resenha - Atores e poderes na nova ordem global - Gilberto Dupas

Pensar um mundo em profunda transformação, para além das disputas ideológicas e visões utópicas, é um desafio constante para os pesquisadores das ciências humanas. Nesse contexto, uma das questões mais prementes talvez seja saber se existe hoje um espaço político onde se possa “trabalhar com consistência o interesse comum entre a grande corporação, a sociedade civil e os Estados nacionais”. Para responder a esta pergunta, Gilberto Dupas, um dos principais pensadores dos efeitos e da lógica do capitalismo global, oferece agora "Atores e poderes na nova ordem global – Assimetria, instabilidades e imperativos de legitimação". Aqui, sua atenção está voltada para o problema da assimetria dos poderes entre os principais atores da geopolítica mundial e da busca de legitimidade por parte do capital.

Dupas parte de um resgate histórico para definir quem são os principais atores do metajogo global, com suas contradições e conflitos de interesses e com especial atenção para a realidade da América Latina, que não aparece quando nos limitamos às informações veiculadas pelo discurso hegemônico. Definidos os atores, passa a analisar suas estratégias e poderes, a busca por legitimidade, como o Estado e as instituições internacionais participam desta estratégia de legitimação por parte destes atores e a tentativa das grandes corporações se livrarem do estigma de destruidores do meio ambiente, redutores do mercado de trabalho global. E, após discutir ainda os dilemas do Estado contemporâneo, investiga ainda as forças de resistência ao capital (das redes virtuais às células terroristas) e as possibilidades de reequilíbrio de poderes.

Detalhando assim a lógica dos atores e dos poderes, Dupas chama a atenção para a necessidade da construção de uma identidade coletiva que “permita a percepção de se fazer novamente parte de um todo” e da reinvenção da política, debatendo “a legitimação da economia mundial, o que envolve estruturar as bases do monopólio da legitimação estatal e democrática no confronto com a lógica econômica”. Atores e poderes na nova ordem global constitui-se assim num grande ensaio não apenas sobre política e democracia, mas sobretudo numa reflexão sobre os possíveis caminhos abertos ao homem contemporâneo

Resenha - Vinte Anos de Crise - Edward Hallett Carr

O período do entre-guerras foi marcado por turbulências e inquietações. A Pri-meira Guerra Mundial, apesar de suas trágicas dimensões, não fora suficiente para dar o golpe de misericórdia na ordem internacional do século XIX, e menos ainda para lançar as bases para uma nova ordem. O livro Vinte Anos de Crise. 1919-1939, de E. H. Carr, publicado no momento em que a Inglaterra declarava guerra à Alemanha em setembro de 1939, apresenta um balanço bastante completo e eloqüente dessa difícil transição de uma ordem para outra, em que padrões tradicionais de comportamento e de percepções deveriam ser abandonados sem que houvesse, contudo, clareza suficiente sobre quais deveriam ser os novos padrões e, conseqüentemente, os meios pelos quais uma nova ordem internacional haveria de se estabelecer.
Escrito no calor dos acontecimentos que precederam o início da Segunda Guerra Mundial e o objeto central da preocupação de Carr era o de compreender e interpretar os inquietantes acontecimentos da política internacional. Entretanto, ao empregar categorias analíticas de uma forma bastante inédita no entendimento dos fenômenos internacionais, sua análise ultrapassou amplamente aquele propósito inicial e acabou por tornar-se um verdadeiro marco na formação do próprio campo de estudo das relações internacionais. Com efeito, E. H. Carr fez parte da geração que estabeleceu as relações internacionais como campo de estudo distinto tal qual conhecemos hoje. Sua motivação inicial tinha por origem os fatos preocupantes de um ambiente internacional ameaçadoramente turbulento, mas sua angústia tornava-se maior ao observar que a inadequação das políticas praticadas derivava em grande parte da total incompreensão a respeito do meio internacional e das forças reais que nele atuavam. Evitar uma conflagração internacional podia fazer parte das preocupações da maioria dos estadistas, todavia esse fato não garantia que esse objetivo seria efetivamente atingido. Carr percebia que na política internacional havia forças que atuavam sobre os atores que, de muitas formas, limitavam ou mesmo condicionavam suas ações. Estava entre aqueles que percebiam que os fenômenos gerados pela convivência internacional tinham peculiaridades que não poderiam ser interpretadas apenas como simples somatórias das ações dos Estados tomados individualmente. [9] Participara da Conferência de Versailles e, assim, acompanhou muito de perto as motivações e as ações dos homens e das instituições que levaram à elaboração e assinatura do Tratado de Paz de Versailles. Além disso, até voltar-se para a vida acadêmica em meados da década de 1930, permaneceu no Foreign Office de onde pode acompanhar, como oficial do Governo, o surgimento e a evolução de várias crises bem como as ações governamentais que tentavam manejá-las. Muitas dessas crises, como a invasão do Ruhr pela França e o colapso da República de Weimar eram conseqüências diretas dos termos do Tratado de Versailles enquanto a incapacidade de ação da Liga das Nações, observava Carr, revelava a incompatibilidade da natureza do meio internacional com a crença predominante, inclusive entre os analistas, de que a simples sistematização de uma ordem jurídica das relações internacionais e a sanção da opinião pública seriam suficientes para banir o uso da força.
Assim, as reflexões de Carr contidas no Vinte Anos de Crise foram também um produto da observação continuada da realidade da política internacional turbulenta, marcada por sucessivas crises que enchiam de perplexidade as mentes pouco acostumadas a padrões em rápida transformação. Nessas circunstâncias, era inevitável que uma mente sensível e atenta como a de Carr se perguntasse angustiadamente o que significava tudo aquilo. O que estava ocorrendo com o Império Britânico? Por que a tentativa de restaurar o padrão ouro fora um fracasso? Por que os acordos de Locarno tiveram tão poucos efeitos sobre a estabilidade internacional? Por que os acontecimentos em regiões distantes haviam se tornado tão importantes para a política internacional? Seriam as elites que teriam se tornado insanas ou as massas é que haviam se tornado incontroláveis? Enfim, para onde o mundo estaria se encaminhando?
As notícias dos acontecimentos, que os jornais divulgavam de maneira cada vez mais febril, ajudavam mais para confundir do que para esclarecer. Tornava-se também claro que as respostas que Carr e a maioria das pessoas preocupadas com as crises procuravam de forma cada vez mais ansiosa, não poderiam ser encontradas nos termos de um tratado ou nas ações de um governante. Perguntas suscitadas pelo ambiente internacional cada vez mais turbulento, como as acima mencionadas, demandavam respostas embasadas em teorias que ligassem os fatos entre si, dando-lhes sentido e orientação. Mais tarde, E. H. Carr iria publicar um pequeno livro intitulado What is History (1961) resultante de suas reflexões sobre essa questão. Nesse livro, Carr argumenta que o historiador não deve restringir-se apenas a localizar e descrever com exatidão os fatos ocorridos. Localizar devidamente os fatos no tempo e descrevê-los com exatidão constituem apenas uma obrigação primária; o verdadeiro historiador, afirma Carr, deve ir além. Deve interpretar os fatos, a começar pela seleção daqueles que julga efetivamente relevantes: “… o fato de César atravessar aquele pequeno riacho, o Rubicão, é um fato da história, ao passo que a travessia do Rubicão, por milhões de outras pessoas, antes ou desde então, não interessa a ninguém em absoluto”, escreve Carr. [10]
Com efeito, desde a Grande Guerra de 1914-18, as notícias sobre os acontecimentos internacionais ganharam espaço nos jornais, mas isto não queria dizer que crises, conflitos e tratados fossem melhor compreendidos. Dessa forma, em grande medida, Vinte Anos de Crise derivava de uma preocupação que se estenderia por toda a sua vida: a de tentar encontrar um sentido para os fatos observáveis e aí buscar as respostas a perguntas como as acima mencionadas. Quando deixou o Foreign Office em 1936 e seguiu para a Universidade de Aberystwyth, no País de Gales, levava consigo, de um lado, vinte anos de observação da política internacional, mas de outro lado, levava também a inquietante percepção de que as tradicionais categorias empregadas na análise e nas práticas que haviam servido tão bem à geração de Lord Salisbury para compreender e agir na política internacional de seu tempo, tornaram-se referenciais pouco seguras para Balfour e, claramente, haviam se tornado totalmente inadequadas para as questões que a geração de Lloyd George estava tendo que enfrentar.
Na verdade, a percepção de que a realidade internacional precisava ser melhor compreendida era compartilhada por muitos daqueles que haviam participado ou simplesmente acompanhado os acontecimentos que fizeram das primeiras décadas do século XX um período marcado por tragédias e perplexidades. O que não estava claro é como essa demanda poderia ser atendida. Pode-se dizer que E. H. Carr teria sido, na verdade, aquele que, em seu tempo, percebeu mais claramente essas circunstâncias e efetivamente fez a síntese mais completa de um entendimento que se consolidava acerca da utilidade, e mesmo da necessidade, de se olhar as relações internacionais sob um prisma científico. Em outras palavras, embora não houvesse clareza e homogeneidade nessa percepção, generalizava-se o entendimento de que os fenômenos internacionais deveriam ser observados e interpretados por meio de estruturas teóricas e que constituíam uma classe de fenômenos suficientemente distinta para justificar a construção de uma nova ciência. Não foi acidental, portanto, o fato de Carr dedicar a primeira parte do livro Vinte Anos de Crise à explicação do “nascimento de uma nova ciência”. [11]
É importante mencionar o fato de que a novidade das iniciativas não estava na preocupação em destacar a importância da reflexão sobre os fenômenos internacionais, mas sim no entendimento de que essa reflexão poderia tornar-se muito mais precisa e articulada se passasse a ser feita com o emprego de métodos desenvolvidos pela ciência. Com efeito, desde a Antigüidade e especialmente a partir dos fins da Idade Média, no mundo ocidental a reflexão sobre as relações entre povos e unidades políticas vinha sendo feita no âmbito da filosofia política. A novidade da preocupação era o entendimento de que a compreensão dos fenômenos internacionais poderia ser aumentada e tornar-se universal com o desenvolvimento de conceitos e categorias de análise seguindo os padrões da ciência social moderna. A particularidade é que muitos dos conceitos fundamentais deveriam ser tomados diretamente de pensadores como Aristóteles, Maquiavel, Bodin ou Rousseau, que haviam vivido séculos antes. A principal razão era o entendimento de que esses filósofos, por terem refletido sistematicamente sobre o homem e a sua natureza, poderiam oferecer pistas mais seguras sobre possíveis elementos universais e atemporais relativos ao comportamento humano. Assim, enquanto na economia, por exemplo, os autores considerados “clássicos” do pensamento econômico estão situados essencialmente a partir da época tida como a do nascimento da própria ciência econômica, isto é, a partir dos fisiocratas, nas relações internacionais, contudo, há mais de uma dezena de autores considerados consensualmente como “clássicos” e que são muito anteriores ao século XX. Nesse particular, a grande diferença entre os fenômenos característicos de cada um desses domínios do conhecimento é que noções centrais para a vida econômica como a de mercado, por exemplo, só emergem efetivamente na modernidade enquanto estado, poder, guerra e paz são fenômenos observados, descritos e analisados desde a Antigüidade.


veja também esta outra resenha

http://www6.ufrgs.br/nerint/folder/resenhas/resenha3.pdf

Resenha - Claro Enigma - Drummond

Contexto Historico:
O Modernismo no Brasil

Momento Histórico
- As máquina e o ritmo acelerado da civilização industrial se incorporavam à paisagem brasileira.
- Problemas sociais antigos continuam sem solução, produzindo tensões e conflitos graves. Os meios intelectuais sentem que é preciso reformar o Brasil, mergulhado numa contradição grave: a mesmo tempo em que se modernizava, mantinha uma organização social arcaica.

Características Literárias
- A 1ª fase é a de ruptura com o passado. Humor, uso do coloquial, primitivismo, vanguardas, tudo é válido para criar uma literatura em sintonia com os novos tempos.
- Na 2ª fase se estabelecem o romance regionalista, que retrata uma certa região do pais, e a prosa intimista, que estuda o homem urbano.
- A 3ª fase nega algumas das propostas da 1ª e retorna o uso cuidadoso e consciente da palavra. O número de correntes literárias e autores cresce, o que torna difícil classificar essa fase.



Os poemas de Claro enigma, livro publicado por Carlos Drummond de Andrade em 1951, revelam um poeta ciente da finitude e disposto a analisar as conquistas e perdas da maturidade para, no atrito com o tempo corrosivo, enriquecer sua obra com a expressão das tensões vividas pelo homem que caminha, lúcido, para a morte. Drummond dedica-se a um exercício obstinado para compreender e representar poeticamente os efeitos desse devir nas respostas emocionais, nas ações praticadas e nos sentidos conferidos ao mundo, inserindo o tema na linha da investigação filosófica que anima a obra no período. Nesse movimento, nota a temporalidade vazia e as várias representações que procuram escamotear a angústia do tempo, reagindo a elas com a incondicional aplicação da lucidez na leitura de si mesmo e do objeto. Armado contra as imagens falaciosas do mundo, o poeta anuncia seu desligamento da poesia atravessada pela matéria histórica, que cultivara na década anterior, e, em seu lugar, apresenta uma poesia fortemente dissonante, que pretende a dicção alta e a referência mítica, mas desautoriza o conhecimento produzido pela tradição cultural. A resistência ao fluxo do tempo faz-se pela experiência amorosa e pela memória da família e da província. A vivência do amor permite ao sujeito reelaborar a vida que se esvai, resgatando alguma vitalidade no momento de ocaso. No entanto, é uma experiência antitética, já que sua aprendizagem é solitária e reafirma a morte incorporada. O estado de simpatia com a morte coloca a memória como a mais fundamental experiência do tempo e, nessa linha, a família e a terra natal são revisitadas em função do desejo de compreender a herança material-emotiva que os antepassados legaram. A palavra que rememora recria a família, tornando-a alvo do desejo e de uma prosaica mitificação, mas não basta para anular os conflitos do passado, que emergem e pontuam a singular identidade mineira do poeta. O conjunto
das questões postas por Claro enigma define um paradoxo entre a proposta de idealidade, representada pelo não-tempo do mito, e o aprisionamento no fluxo diruptivo do tempo, promovido pela experiência da madureza. A lucidez impede a instauração da idealidade, mas o simbólico gesto de tirar os olhos do mundo, muito freqüente na obra, evidenciará a necessidade de manutenção de um refúgio para a subjetividade individual. Essa tensão é o principal recurso estruturador de Claro enigma



Os poemas de Claro enigma, livro publicado por Carlos Drummond de Andrade em 1951, revelam um poeta ciente da finitude e disposto a analisar as conquistas e perdas da maturidade para, no atrito com o tempo corrosivo, enriquecer sua obra com a expressão das tensões vividas pelo homem que caminha, lúcido, para a morte. Drummond dedica-se a um exercício obstinado para compreender e representar poeticamente os efeitos desse devir nas respostas emocionais, nas ações praticadas e nos sentidos conferidos ao mundo, inserindo o tema na linha da investigação filosófica que anima a obra no período. Nesse movimento, nota a temporalidade vazia e as várias representações que procuram escamotear a angústia do tempo, reagindo a elas com a incondicional aplicação da lucidez na leitura de si mesmo e do objeto. Armado contra as imagens falaciosas do mundo, o poeta anuncia seu desligamento da poesia atravessada pela matéria histórica, que cultivara na década anterior, e, em seu lugar, apresenta uma poesia fortemente dissonante, que pretende a dicção alta e a referência mítica, mas desautoriza o conhecimento produzido pela tradição cultural. A resistência ao fluxo do tempo faz-se pela experiência amorosa e pela memória da família e da província. A vivência do amor permite ao sujeito reelaborar a vida que se esvai, resgatando alguma vitalidade no momento de ocaso. No entanto, é uma experiência antitética, já que sua aprendizagem é solitária e reafirma a morte incorporada. O estado de simpatia com a morte coloca a memória como a mais fundamental experiência do tempo e, nessa linha, a família e a terra natal são revisitadas em função do desejo de compreender a herança material-emotiva que os antepassados legaram. A palavra que rememora recria a família, tornando-a alvo do desejo e de uma prosaica mitificação, mas não basta para anular os conflitos do passado, que emergem e pontuam a singular identidade mineira do poeta. O conjunto das questões postas por Claro enigma define um paradoxo entre a proposta de idealidade, representada pelo não-tempo do mito, e o aprisionamento no fluxo diruptivo do tempo, promovido pela experiência da madureza. A lucidez impede a instauração da idealidade, mas o simbólico gesto de tirar os olhos do mundo, muito freqüente na obra, evidenciará a necessidade de manutenção de um refúgio para a subjetividade individual. Essa tensão é o principal recurso estruturador de Claro enigma



O poema se marca, pelo menos na sua camada mais evidente, por uma estética corrosiva que se concretiza no processo de interrogações e negações de cunho niilista, em consonância, aliás, com a onda existencialista em voga na década de 50, momento em que surgiu Claro Enigma. Ao eu poético parece nada restar a não ser a constatação da inutilidade de si mesmo e do mundo, numa reafirmação da visão shopenhaueriana, que também em Heidegger e Sartre encontra eco, segundo a qual é inerente ao homem a sua condição de ser para a morte. Esse recorte singular e solitário da individualidade contra os “monstros atuais” (7º verso), num diálogo surdo com o mundo, mostra-se como a face mais visível do poema de Drummond que, habilmente, guarda como seu trunfo maior aquilo que fará despontar, em seu final, para ser a contraface desse desencanto. É que, embora predominem espressões disfóricas que vão intensificando ao longo do poema o sentido da negação (ou do canto nenhum a ser legado), há outro sentido - o traçado pelo “passo caprichoso” - a irromper para além das negações.

O que interessa a Drummond quanto ao legado a deixar não é a sua obra enquanto totalidade ou acabamento, nem como universo reconfortante, mas como caminho de construção de uma escrita que se escreve dentro e fora do poeta, afirmando-o e libertando-o de seus limites. É o que diz Maurice Blanchot a respeito da obra, vista como fala errante: “uma obra está concluída, não quando o é, mas quando aquele que nela trabalha do lado de dentro pode igualmente terminá-la do lado de fora, já não é retido interiormente pela obra (...)” (1987, p. 48) E a saída que o eu-lírico drummondiano encontra para não ficar retido em sua obra é deslizar para um diálogo irônico com ela, examinando-a com o olhar do “vasto mundo” que o poeta já incorporara em sua poesia de 1930 (em “Poema de sete faces”, por exemplo) e agora recupera para reescrever em outros moldes aquela rima desencontrada com o mundo. O verso “Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.” não é senão um desdobramento de outros, legados de sua poesia passada: “Mundo mundo vasto mundo, / se eu me chamasse Raimundo (...)” - mas uma fala agora já mais amadurecida pelo corroer da consciência e menos explícita quanto ao jogo travado com a própria linguagem. Abandonada a rima, que seria apenas uma solução formal e não resolveria o conflito maior, de natureza semântico-existencial, o que fica para o poeta explorar nessa nova investida contra o mundo é uma matéria que não oculta a sua negatividade constitutiva: o canto não será radioso, não terá poder para desfazer a bruma ou espinhos, muito menos para seduzir ou encantar, diz o poeta. A voz órfica só existe mesmo como referência longínqua para uma modulação lírica moderna desacreditada de seus poderes

31/01/2008

The End-of-the-World Economic Forum

In this great age of denial, Davos may seem out of touch, but the Bush administration is so much worse.
SHADOWLANDChristopher Dickey
Jan 30, 2008 | Updated: 2:05 p.m. ET Jan 30, 2008


In 1789, when the French Revolution was just beginning and the whole world order was about to collapse, the mood around Versailles must have been a little like it was in Davos, Switzerland, last week. Powerful men and powerful women who had believed themselves to be the masters of the universe kept trying to reassure each other that change would not be so precipitous or calamitous as all that noise from the rabble suggested. The fundamentals of their political and economic order were, well, a little shaky, but probably sound. A reform here or there would do the trick. No bread? Eat cake.

There were voices of reason and alarm, of course, even at Versailles and certainly at Davos. In the Alps they uttered words like recession, they described the megashifts in the global economy sapping strength from the United States and giving it to rising powers like China and India. They addressed critical issues like oil prices, water shortages and climate change. If you listened to them, in fact, as NEWSWEEK's team of reporters did, you might have more than an inkling of traumas that lie ahead for Americans and the unmitigated disaster facing many other peoples.

The best remarks were off the record, of course—a major stockholder in one Fortune 500 company saying bluntly, "We're all wondering how poor we are"; a seasoned U.S. political consultant telling friends over lunch that the next U.S. president will face the greatest challenges since any chief executive since Franklin Delano Roosevelt took office in 1933. The American economy is in bad shape, and the economic order of the last 60 years is collapsing—as the ultrarich George Soros stated flatly. The Iraq war is far from over, the challenge of Iran is undiminished, the threat of terrorism has not subsided. Even amid economic uncertainties the voracious consumption of resources by the United States continues, while the omnivorous energy appetites of the Asian giants grows and the "solutions" touted only months ago, such as biofuels, open the way to new calamities.

While I was at Davos, a place the German novelist Thomas Mann called "The Magic Mountain" in his novel set on the eve of World War I, it seemed to me that impending disasters were obscured by equivocal verbiage like craggy rocks beneath a blanket of snow. As Mann writes of his central character, people in that rarefied air have "a willful tendency to take the shadow for the substance, and in the substance see only shadow." And then I came back to what Mann called "the catastrophe-smitten flatland," and I listened to President George W. Bush's State of the Union address, and Davos suddenly seemed a haven of pragmatic realism.

If death and taxes are the only things certain in this world (as Benjamin Franklin wrote to a Frenchman in 1789), then the only thing certain about Bush is that he'll claim that lowering taxes cures economic ills and dealing death abroad makes Americans safer at home.

Scholars at the Council on Foreign Relations (another ivory tower more in touch with reality than the White House) came right to the point. Whether their backgrounds were liberal or conservative, their disappointment in Bush was palpable. At a moment of radical changes around the world, "President Bush's State of the Union was noteworthy for not being particularly noteworthy," wrote Charles Kupchan, while Peter Beinart noted, "It was as if the world outside the greater Middle East doesn't exist … It is an odd State of the Union speech that mentions Sudan, Zimbabwe, Belarus, and Burma, but ignores Russia and China." Max Boot praised Bush for the surge in Iraq, which has patched up a little of the massive damage done by five years of snafus. But Boot excoriates "Bush's failure to stand up to the Iranian menace [which] represents perhaps the biggest failure of his presidency—unless it is eclipsed by his failure to deal with the looming threat of Pakistan, which earned barely any mention at all in this State of the Union." And so on.

The general consensus: it's going to be up to the next president to sort all this out. But the candidates' campaigns are, as it were, all about shadows masquerading as substance. The latest kerfuffle about Barack Obama's alleged snub of Hillary Clinton in the crowd after the State of the Union is just the latest case in point. The leading Republican candidates, meanwhile, are no longer distancing themselves from Bush but pretending his policies have succeeded. They're quite comfortable with their party of more death and less taxes.

No wonder we heard at Davos that whosoever is elected will face the greatest challenges since FDR. And no wonder a few of the people I met drew a vindictive conclusion from that fact: someone—like Bush—should be held responsible. A former American intelligence officer now in private business looked me in the eye one night and said quite bluntly, "What they've done is criminal." The phrase had the kind of finality you might have heard in 1789—or maybe a couple of years later, when the guillotine got greased up. But of course that's not going to happen, even metaphorically. Bad kings don't pay for their crimes these days, nor do presidents who thought they ruled by divine right. Only the people do.

© 2008 Newsweek, Inc.

17/11/2007

A questão entre Israel e a Palestina

A questão entre Israel e a Palestina
Fonte Mundo do Vestibular

Palestina (do original Filistina – “Terra dos Filisteus”) é o nome dado desde a Antigüidade à região do Oriente Próximo (impropriamente chamado de “Oriente Médio”), localizada ao sul do Líbano e a nordeste da Península do Sinai, entre o Mar Mediterrâneo e o vale do Rio Jordão.

Trata-se da Canaã bíblica, que os judeus tradicionalistas preferem chamar de Sion. A Palestina foi conquistada pelos hebreus ou israelitas (mais tarde também conhecidos como judeus) por volta de 1200 a.C., depois que aquele povo se retirou do Egito, onde vivera por alguns séculos.

Mas as sucessivas dominações estrangeiras, começadas com a tomada de Jerusalém (587 a.C.) por Nabucodonosor, rei da Babilônia, deram início a um progressivo processo de diáspora (dispersão) da população judaica, embora sua grande maioria ainda permanecesse na Palestina.

As duas rebeliões dos judeus contra o domínio romano (em 66-70 e 133-135 d.C.) tiveram resultados desastrosos. Ao debelar a primeira revolta, o general (mais tarde imperador) Tito arrasou o Templo de Jerusalém, do qual restou apenas o Muro das Lamentações. E o imperador Adriano, ao sufocar a segunda, intensificou a diáspora e proibiu os judeus de viver em Jerusalém.A partir de então, os israelitas espalharam-se pelo Império Romano; alguns grupos emigraram para a Mesopotâmia e outros pontos do Oriente Médio, fora do poder de Roma. A partir de então, a Palestina passou a ser habitada por populações helenísticas romanizadas; e, em 395, quando da divisão do Império Romano, tornou-se uma província do Império Romano do Oriente (ou Império Bizantino). Em 638, a região foi conquistada pelos árabes, no contexto da expansão do islamismo, e passou a fazer parte do mundo árabe, embora sua situação política oscilasse ao sabor das constantes lutas entre governos muçulmanos rivais. Chegou até mesmo a constituir um Estado cristão fundado pelos cruzados (1099-1187). Finalmente, de 1517 a 1918, a Palestina foi incorporada ao imenso Império Otomano (ou Império Turco). Deve-se, a propósito, lembrar que os turcos, e embora muçulmanos, não pertencem à etnia árabe. Em 1896, o escritor austríaco de origem judaica Theodor Herzl fundou o Movimento Sionista, que pregava a criação de um Estado judeu na antiga pátria dos hebreus.

Esse projeto, aprovado em um congresso israelita reunido em Genebra, teve ampla ressonância junto à comunidade judaica internacional e foi apoiado sobretudo pelo governo britânico (apoio oficializado em 1917, em plena Primeira Guerra Mundial, pela Declaração Balfour).

No início do século XX, já existiam na região pequenas comunidades israelitas, vivendo em meio à população predominantemente árabe. A partir de então, novos núcleos começaram a ser instalados, geralmente mediante compra de terras aos árabes palestinos. Durante a Primeira Guerra Mundial, a Turquia lutou ao lado da Alemanha e, derrotada, viu-se privada de todas as suas possessões no mundo árabe. A Palestina passou então a ser administrada pela Grã-Bretanha, mediante mandato concedido pela Liga das Nações. Depois de 1918, a imigração de judeus para a Palestina ganhou impulso, o que começou a gerar inquietação no seio da população árabe. A crescente hostilidade desta última levou os colonos judeus a criar uma organização paramilitar – a Haganah – a princípio voltada para a autodefesa e mais tarde também para operações de ataque contra os árabes.

Apesar do conteúdo da Declaração Balfour, favorável à criação de um Estado judeu, a Grã-Bretanha tentou frear o movimento imigratório para não descontentar os Estados muçulmanos do Oriente Médio, com quem mantinha proveitosas relações econômicas; mas viu-se confrontada pela pressão mundial da coletividade israelita e, dentro da própria Palestina, pela ação de organizações terroristas. Após a Segunda Guerra Mundial, o fluxo de imigrantes judeus tornou-se irresistível. Em 1947, a Assembléia Geral da ONU decidiu dividir a Palestina em dois Estados independentes: um judeu e outro palestino. Mas tanto os palestinos como os Estados árabes vizinhos recusaram-se a acatar a partilha proposta pela ONU. Em 14 de maio de 1948, foi proclamado o Estado de Israel, que se viu imediatamente atacado pelo Egito, Arábia Saudita, Jordânia, Iraque, Síria e Líbano (1ª Guerra Árabe-Israelense). Os árabes foram derrotados e Israel passou a controlar 75% do território palestino. A partir daí, iniciou-se o êxodo dos palestinos para os países vizinhos. Atualmente, esses refugiados somam cerca de 3 milhões. Os 25% restantes da Palestina, correspondentes à Faixa de Gaza e à Cisjordânia, ficaram sob ocupação respectivamente do Egito e da Jordânia.

Note-se que a Cisjordânia incluía a parte oriental de Jerusalém, onde fica a Cidade Velha, de grande importância histórica e religiosa.

08/11/2007

Globalização, integração e Estado Nacional no mundo contemporâneo

Globalização, integração e Estado Nacional no mundo contemporâneo
Jul 27th, 2007 by Amado Cervo

Neste artigo não se focaliza a definição dos três conceitos - globalização, integração e papel do Estado Nacional - utilizados para analisar as relações internacionais contemporâneas desde o fim da Guerra Fria. Manipula esses fenômenos, na expectativa de contribuir para sua compreensão, mas tem por escopo o nexo entre eles. Considera plausível tomar este nexo seja como determinante seja como efeito da evolução dos referidos fenômenos.

Os internacionalistas que buscaram compreensão para a transição da ordem internacional da Guerra Fria rumo às linhas de força das relações internacionais dos anos 1990 insistiram, como sabemos, sobre o fenômeno da globalização, mas o aproximavam de outro fenômeno, a integração, visto que estabeleciam uma espécie de disputa entre ambos, na suposição de que dessa disputa haveria de resultar o equilíbrio no controle da ordem. De todo modo, esses dois fenômenos eram vistos como tendências de fundo das relações internacionais, ambos contribuindo para colocar em xeque o Estado Nacional como força profunda de mesma envergadura.

Eis que no início do século XXI, contrariando essa última convicção, percebe-se o Estado Nacional desempenhando funções anteriores à transição dos anos 1990 em alguns casos, agregando novas funções em outros, mas o mais curioso é que o Estado passa por vezes, na mesma nação, de uma função a outra.

Nossa reflexão trabalha com duas idéias centrais. Na primeira parte, analisamos as duas tendências das relações internacionais de 1990 a nossos dias - globalização e integração - e o papel que desempenham os Estados Nacionais nesse contexto, tomando como apoio autores que nos são mais próximos. Aprofundamos, na segunda parte, o nexo entre tais fenômenos na América do Sul, à luz das experiências históricas regionais, com o fim de estabelecer modelos para análise das relações internacionais da região.

I - DUAS TENDÊNCIAS DAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS DESDE 1990: GLOBALIZAÇÃO E INTEGRAÇÃO

Uma interpretação das relações internacionais que fez sucesso no início da década de 1990 comportava grave equívoco histórico: a interpretação segundo a qual a globalização era fenômeno recente, uma nova fase da evolução do capitalismo, posta em marcha com o fim do socialismo real. Essa interpretação vinha geralmente acompanhada de outro equívoco, de caráter normativo, apregoar a falência do Estado Nacional. A interpretação era formulada por analistas das relações internacionais que não levavam em conta as tendências da História de séculos anteriores, pelo menos dos quatro últimos séculos, seja porque as desconheciam, seja porque argumentavam à luz de convicções derivadas do imediato ou de fundamento ideológico. Era mais nítido, no caso do segundo equívoco, o fundamento ideológico da argumentação, derivada da crença segundo a qual o mercado norteia por si as tendências de fundo da História, alheio à influência de idéias e ação dos homens de Estado para a realização de interesses nacionais.

O poder das idéias, entretanto, corretas ou não, segue um curso que nem sempre se baliza pela lógica que aprendemos nas aulas de filosofia. Aprendi tal lição ao ler o recente livro Cultura e Poder de meu colega Estevão Chaves de Rezende Martins. Os internacionalistas equivocados expunham suas convicções pelo ensino e reproduziam seus argumentos aos quatro ventos. O meio político, no mundo todo, deixava-se seduzir. A opinião pública era penetrada e o resultado eleitoral afetado. Governos eleitos brandiam suas novas plataformas de ação: modificar o ordenamento interno, isto é, o substrato legal e institucional, adaptando-o às duas tendências do momento: globalização e retirada de cena do Estado tradicional, seja o desenvolvimentista na periferia, seja o do bem-estar no centro.

Localizamos uma versão consistente desses equívocos nos escritos de Fernando Henrique Cardoso publicados na década de 1990: mudam-se os tempos, insistia o sociólogo brasileiro das relações internacionais, Presidente da República. Por certo, os tempos mudavam. Mesmo que não fossem fenômenos recentes, mesmo que não requisitassem a falência do Estado, globalização e integração eram tendências hegemônicas em curso nas relações internacionais.

Sobretudo a primeira, que conformava o mercado mundial de consumo, estabelecia a convergência ideológica em torno do capitalismo, a hierarquia das potências com os Estados Unidos no topo da pirâmide, a unificação dos processos técnicos e dos sistemas produtivos no mundo, a expansão da transnacionalidade empresarial, a cidadania universal que se conferia ao capital etc. Temerosos diante de possíveis efeitos negativos dessa força da História, os Estados reagiam, agrupando-se em blocos com o fim de domá-los ou simplesmente proteger-se.

O itinerário da contestação dos equívocos, erigidos em dogma pelo pensamento neoliberal latino-americano, passou por duas fases: uma tímida e sem muita expressão - a fase cética - outra consistente e alardeada, a fase crítica: será mesmo a globalização nova e definitiva tendência histórica, estará mesmo o Estado Nacional condenado ao sono eterno diante das mudanças em curso?

Tomamos a liberdade de referir dois grupos com os quais envolvemos nossos estudos, grupos estes que publicaram cerca de duas dezenas de livros na virada do século e desfizeram os equívocos acima mencionados à luz de objetiva análise, com sólida fundamentação histórica. O grupo argentino, constituído entre outros pelo economista Aldo Ferrer, o internacionalista Raúl Bernal-Meza e o historiador das relações internacionais Mario Rapoport, por um lado, e a escola de Brasília, denominação atribuída por Bernal-Meza ao segundo grupo, aqui representado por alguns pesquisadores.

Céticos em um primeiro momento, embora não calados, porque faziam da sala de aula o campo de expressão, críticos quando amadureciam seus argumentos e os veiculavam em publicações, os dois grupos chegavam a conclusões convergentes. A globalização não representa fenômeno nem tendência recentes, apenas seu ritmo mais acelerado e sua expansão a penetrar economia e sociedade de modo horizontal e vertical. A falência do Estado Nacional não vai além de uma suposição irrealista, porquanto é ele o arquiteto da globalização e o inventor dos blocos de defesa diante dela ou de controle de efeitos.

Os dois grupos aprofundaram o estudo dos fenômenos da globalização e da integração. Acabaram por estabelecer duas fases históricas de 1990 a nossos dias, ao descrever a evolução dessas tendências. A primeira estende-se, grosso modo, de 1990 a 2000 e a segunda pertence ao novo século. Caracterizamos a ambas, sucintamente.

A década dos noventa estabeleceu um certo equilíbrio entre as duas forças profundas da História, globalização e integração. Ambas as tendências avançavam a olhos vistos, uma globalização horizontal e vertical a moldar a ordem internacional em sua essência, a criação ou a consolidação de blocos de países, de matiz tanto econômica quanto política, como a UE, o Nafta, o Mercosul, a Apec etc. Estar-se-ia montando uma ordem global, de forte vertente regional?

Quando adentramos o século XXI, revelou-se que nada disso era seguro. Na História não há tendência irreversível nem mecanismo de aplicação automática. O que é humano é contingente, por isso não há teoria duradoura para explicar definitivamente os fenômenos como no campo da física ou da biologia.

Com efeito, os estudos mostram que não era definitivo o equilíbrio no controle da ordem internacional a partir das duas tendências em curso, a globalização impelida pelas estruturas hegemônicas do capitalismo, tomada pela periferia como padrão sem escolha, e a integração que lhe disputava espaço na conformação da ordem. Três novos fenômenos irrompem no século XXI, com capacidade de influência talvez não comparável aos dois anteriores, porém em condições de chacoalhar os alicerces do novo mundo.

Por um lado, a desastrosa experiência neoliberal da América Latina, que revelou a ideologia sobre a qual se fundava a crença de intelectuais e políticos acerca da capacidade ilimitada do mercado em prover o desenvolvimento e o bem-estar, mesmo o fortalecimento econômico. Por outro, a crise do multilateralismo, que também reverteu a tendência de reforçar a globalização por meio de instituições, regimes e ordenamentos universais no campo do comércio, das finanças, da segurança, dos direitos humanos, do meio ambiente etc. Enfim, o retorno do Estado Nacional, que se imiscui em meio a tais fenômenos, no qual voltam a se pendurar as esperanças e a segurança dos cidadãos, passado o encanto e emudecido o canto de sereia de globalistas e integracionistas.

II - O NEXO ENTRE ESTADO NACIONAL, GLOBALIZAÇÃO E INTEGRAÇÃO NA AMÉRICA DO SUL NO SÉCULO XXI

A explosão das torres gêmeas em 2001 não abalou apenas os Estados Unidos, mas pela importância que lhe atribuiu a primeira potência global, tornou-se problema de todos. Com efeito, o fato não apenas simboliza, mas marca a passagem para a introspecção nacional em todo o mundo. Se não, por que os Estados Unidos se refugiam em evidente unilateralismo de conduta, a União Européia vê sua unidade política e seu projeto econômico recusado por alguns países sob variados pretextos, por que os nacionalismos ressurgem nos bálcãs e na antiga União Soviética, por que os grandes países asiáticos, como China e Índia, implementam projeto próprio de desenvolvimento, por que o Oriente Médio se torna palco de intervenções decididas por governos e não pela ONU?

A segunda fase de evolução da ordem internacional que estamos descrevendo não surpreendeu a América do Sul, cujos governos já andavam envoltos com a deterioração das condições sociais e econômicas provocada pelas experiências neoliberais. Nessa região, o retorno do Estado Nacional ocorreu por esta última razão, mas encontrou por certo condições favoráveis no ambiente internacional. Percebem-se dois traços regionais dessas mudanças: a crise dos processos de integração regional, Mercosul, Comunidade Andina, fusão ou expansão de quê; a busca de soluções para as dificuldades nacionais desde uma perspectiva dos Estados Nacionais, ao invés de soluções regionais ou globalistas.

A América do Sul, contudo, não apresenta unidade de conduta em termos de política exterior ou modelo de inserção internacional no século XXI, como ostentara na última década do XX. Tanto é, que podemos expor, a seguir, três modelos de Estado que reagem diante das tendências de globalização e integração, o brasileiro-chileno, o venezuelano-boliviano e o argentino.

Brasil e Chile: modelo globalista com diferente linearidade

Por certo, esses dois países se encontram sobre o leito profundo da tendência histórica da globalização, como solteiros, contudo, não como casal. Isso porque compõem bem o modelo de países globalistas por um lado, mas reagem de forma distinta, por outro. O Chile persegue a globalização estruturalmente dependente de país periférico primário, dito liberal-exportador, ao passo que o Brasil coloca sua vocação industrial no topo dos valores da alta política internacional. Assim, o primeiro corre atrás do acordo de livre comércio com os Estados Unidos, ao passo que o segundo bloqueia a criação da Alça, recusa aquele e outros acordos bilaterais ou interblocos que estabeleçam a perpetuação das estruturas hegemônicas do capitalismo sobre países emergentes, enfim reforça seu poder em coalizões decididas a bloquear a produção do ordenamento ou de regimes globais que não realizem a reciprocidade real dos interesses entre estruturas hegemônicas e países periféricos.

Embora distantes em sua visão de mundo e em seus objetivos externos, é notável a conduta logística dos Estados, no Chile e no Brasil, a secundar a sociedade, que anda por si, mas conduzida pela mão, não da providência, mas da dirigência nacional. Para o Chile, mercados externos para os produtos da terra; para o Brasil, mercado para produtos agrícolas e industrializados, internacionalização de empresas de matriz nacional, diplomacia multilateralista de reciprocidade real no mundo da interdependência global. Para o Chile, juros baixos, combate à especulação financeira e elevada taxa de crescimento; para o Brasil, elevada taxa de juros, especulação financeira e crescimento medíocre. Para o Chile, integração regional secundária, visto que a meta externa prioritária consiste em alcançar pela via do livre comércio mercados em condições privilegiadas; para o Brasil, integração regional sobrevalorizada, atrelada a seu projeto sul-americano de integração produtiva.

Venezuela e Bolívia: modelo intervencionista anterior à recente globalização

Os dois países andinos se alinham em um modelo comum de inserção internacional, porém com especificidades nacionais fortes, a exemplo dos casos anteriores. Venezuela e Bolívia agridem a globalização pelo discurso político, regridem a modelo de intervenção estatal pré-globalista com nacionalizações de empresas privadas e forte nacionalismo político e social, fundamentam o desenvolvimento sobre o capital provindo de recursos naturais ao invés dos fluxos de investimentos externos. Contudo, a Venezuela se abre a vasta cooperação internacional de capitais e empreendimentos, mantém sua vocação de país industrial e acompanha o Brasil em projeto regional de integração produtiva; ao passo que a Bolívia afugenta o capital e o empreendimento estrangeiros, distribui renda ao invés de distribuir trabalho, não assimila conceito algum de integração regional e se isola conscientemente.

Argentina: modelo de introspecção nacional

Nesse início do século XXI, o nexo entre Estado Nacional, globalização e integração configura na Argentina modelo diferente relativamente aos dois anteriores. Nesse modelo argentino não prevalecem a logística da globalização como no Chile e no Brasil, tampouco a intervenção econômica estatal, em dose comparável ao que sucede na Venezuela e na Bolívia. Fortalece-se, contudo, o papel do Estado. A Argentina busca soluções de dentro para os problemas gerados pela crise do neoliberalismo, que foram os mais graves da região. Por tal razão, globalização e integração caem para segundo plano nas estratégias de ação interna e externa. O lastro histórico econômico e social da nação, o mais robusto e bem distribuído dentre todos os países da América do Sul, parece suficiente para arrancar de dentro as forças com que manter a estabilidade, combater a especulação financeira, atrair capital e empreendimentos e exibir elevado ritmo de crescimento. Em suma, o modelo de introspecção nacional funciona e produz resultados. A integração é vista pela Argentina como integração comercialista, e essa perspectiva, conquanto dê continuidade à própria maneira de concebê-la, afasta o país do projeto brasileiro-venezuelano de integração produtiva.

Conclusões

1. Após a prevalência de três fenômenos de fundo das relações internacionais durante a última década do século XX - globalização, integração e depreciação do Estado Nacional - o mundo entra em fase de crise, com retorno do Estado e explícita incapacidade de fazer avançar o ordenamento multilateral global como também os processos de formação de blocos.
2. A América do Sul revela no período traços semelhantes, porém introduz seus próprios modelos de relações internacionais, em situação bem distinta da década anterior em que o neoliberalismo perfazia a unidade.
3. A não convergência de modelos regionais na América do Sul - países globalistas, liberais ou industrialistas, países estatistas ou de introspecção nacional - conforma um tabuleiro político, no qual o entendimento sobre a ação regional e global não ocorre, a integração não avança e cada qual insiste em perseguir destino próprio, desarticulado do conjunto.
4. Dois cenários futuros para as relações internacionais da região podem ser traçados: o malogro do projeto desenvolvimentista brasileiro de integração produtiva, a começar pela integração energética, em razão dos nacionalismos em voga, e o aprofundamento da inserção globalista de caráter logístico do Brasil; o sucesso da integração produtiva regional e a criação de um pólo de poder sul-americano.

22/10/2007

After the end of empire

The sun sets early on the American Century
The ‘American Century’ only began 60 years ago. But it seems already to be over, with the disaster of Iraq forcing some of the United States’ ruling elites to realise that its hegemony has been severely weakened. But nobody seems to know what to do next, or even how to behave
By Philip S Golub

The disastrous outcome of the invasion and occupation of Iraq has caused a crisis in the power elite of the United States deeper than that resulting from defeat in Vietnam 30 years ago. Ironically, it is the very coalition of ultra-nationalists and neo-conservatives that coalesced in the 1970s, seeking to reverse the Vietnam syndrome, restore US power and revive “the will to victory”, that has caused the present crisis.

There has been no sustained popular mass protest as there was during the Vietnam war, probably because of the underclass sociology of the US’s volunteer army and the fact that the war is being funded by foreign financial flows (although no one knows how long that can continue). However, at the elite level the war has fractured the national security establishment that has run the US for six decades. The unprecedented public critique in 2006 by several retired senior officers over the conduct of the war (1), plus recurrent signs of dissent in the intelligence agencies and the State Department, reflects a much wider trend in elite opinion and key state institutions.

Not all critics are as forthright as retired General William Odom, who tirelessly repeats that the invasion of Iraq was the “greatest strategic disaster in United States history” (2), or Colonel Larry Wilkerson, Colin Powell’s former chief of staff, who denounced a “blunder of historic proportions” and has recently suggested impeaching the president (3), or former National Security Council head Zbigniew Brzezinski who called the war and occupation a “historic, strategic and moral calamity” (4).

Most public critiques from within the institutions of state focus on the way the war and occupation have been mismanaged rather than the more fundamental issue of the invasion itself. Yet discord is wide and deep: government departments are trading blame, accusing each other of the “loss of Iraq” (5). In private, former senior officials express incandescent anger, denounce shadowy cabals and have deep contempt for the White House. A former official of the National Security Council compared the president and his staff to the Corleone mafia family in The Godfather. A senior foreign policy expert said: “Due to an incompetent, arrogant and corrupt clique we are about to lose our hegemonic position in the Middle East and Gulf.” “The White House has broken the army and trampled its honour,” added a Republican senator and former Vietnam veteran.

No doves
None of these, nor any of the other institutional critics, could be considered doves: whatever their political affiliations (mostly Republican) or personal beliefs, they were – and some are still – guardians of US power, managers of the national security state, and sometimes central actors in covert and overt imperial interventions in the third world during the cold war and post-cold war. They were – and some are still – system managers of a self-perpetuating bureaucratic national security machine – first analysed by the sociologist C Wright Mills – whose function is the production and reproduction of power.

As a social group, these realists cannot be distinguished from the object of their criticism in terms of their willingness to use force or their historically demonstrated ruthlessness in achieving state aims. Nor can the cause of their dissent be attributed to conflicting convictions over ethics, norms and values (though this may be a motivating factor for some). It lies rather in the rational realisation that the war in Iraq has nearly “broken the US army” (6), weakened the national security state, and severely if not irreparably undermined “America’s global legitimacy” (7) – its ability to shape world preferences and set the global agenda. The most sophisticated expressions of dissent, such as Brzezinski’s, reflect the understanding that power is not reducible to the ability to coerce, and that, once lost, hegemonic legitimacy is hard to restore.

The signs of slippage are everywhere apparent: in Latin America, where US influence is at its lowest in decades; in East Asia, where the US has been obliged, reluctantly, to negotiate with North Korea and recognise China as an indispensable actor in regional security; in Europe, where US plans to install missile defence capabilities in Poland are being contested by Germany and other European Union states; in the Gulf, where longstanding allies such as Saudi Arabia are pursuing autonomous agendas that coincide only in part with US aims; and in the international institutions, the UN and the World Bank, where the US is no longer in a position to drive the agenda unaided.

Transnational opinion surveys show a consistent and nearly global pattern of defiance of US foreign policy as well as a more fundamental erosion in the attractiveness of the US: the narrative of the American dream has been submerged by images of a military leviathan disregarding world opinion and breaking the rules. World public opinion may not stop wars but it does count in subtler ways. Some of this slippage may be repairable under new leaders and with new and less aggressive policies. Yet it is hard to see how internal unity of purpose will be restored: it took decades to rebuild the shaken US armed forces after Vietnam and to define an elite and popular consensus on the uses of power. The mobilisation of nationalist sentiment to support foreign adventures will not be so easy after Iraq. Nor can one imagine a return to the status quo in world politics.

The invasion and occupation of Iraq is not the sole cause of the trends sketched. Rather, the war significantly accentuated all of them at a moment when larger centrifugal forces were already at work: the erosion and collapse of the Washington Consensus and the gradual rise of new gravitational centres, notably in Asia, were established trends when President George Bush went to war. Now, as the shift in the world economy towards Asia matures, the US is stuck in a conflict that is absorbing its total energies. History is moving on and the world is slipping, slowly but inexorably, out of US hands.

Destined to act as hegemon
For the US power elite this is deeply unsettling. Since the mid-20th century US leaders have thought of themselves as having a unique historic responsibility to lead and govern the globe. Sitting on top of the world since the 1940s, they have assumed that, like Great Britain in the 19th century, they were destined to act as hegemon – a dominant state having the will and the means to establish and maintain international order: peace and an open and expanding liberal world economy. In their reading of history it was Britain’s inability to sustain such a role and the US’s simultaneous unwillingness to take responsibility (isolationism) that created the conditions for the cycle of world wars and depression during the first half of the 20th century.

The corollary of this assumption is the circular argument that since order requires a dominant centre, the maintenance of order (or avoidance of chaos) requires the perpetuation of hegemony. This belief system, theorised in US academia in the 1970s as “hegemonic stability”, has underpinned US foreign policy since the second world war, when the US emerged as the core state of the world capitalist system. As early as 1940 US economic and political elites forecast a vast revolution in the balance of power: the US would “become the heir and residuary legatee and receiver for the economic and political assets of the British Empire – the sceptre passes to the United States” (8).

A year later Henry R Luce announced the coming American Century: “America’s first century as a dominant power in the world” meant that its people would have “to accept wholeheartedly our duty and our opportunity as the most powerful and vital nation and exert upon the world the full impact of our influence as we see fit and by such means as we see fit”. He added that “in any sort of partnership with the British Empire, America should assume the role of senior partner” (9). By the mid 1940s the contours of the American Century had already emerged: US economic predominance and strategic supremacy upheld by a planetary network of military bases from the Arctic to the Cape and from the Atlantic to the Pacific.

The post-war US leaders who presided over the construction of the national security state were filled, in William Appleman Williams’s words, with “visions of omnipotence” (10): the US enjoyed enormous economic advantages, a significant technological edge and briefly held an atomic monopoly. Though the Korean stalemate (1953) and the Soviet Union’s nuclear weapons and missile programmes dented US self-confidence, it took defeat in Vietnam and the domestic social upheavals that accompanied the war to reveal the limits of power. Henry Kissinger’s and Richard Nixon’s “realism in an era of decline” was a reluctant acknowledgement that the overarching hegemony of the previous 20 years could not and would not last forever.

But Vietnam and the Nixon era were a turning point in another more paradoxical way: domestically they ushered in the conservative revolution and the concerted effort of the mid-1980s to restore and renew the national security state and US world power. When the Soviet Union collapsed a few years later, misguided visions of omnipotence resurfaced. Conservative triumphalists dreamed of primacy and sought to lock in long-term unipolarity (11). Iraq was a strategic experiment designed to begin the Second American Century. That experiment and US foreign policy now lie in ruins.

Britain’s long exit
Historical analogies are never perfect but Great Britain’s long exit from empire may shed some light on the present moment. At the end of the 19th century few British leaders could begin to imagine an end to empire. When Queen Victoria’s Diamond Jubilee was celebrated in 1897, Britain possessed a formal transoceanic empire that encompassed a quarter of the world’s territory and 300 million subalterns and subjects – twice that if China, a near colony of 430 million people, was included. The City of London was the centre of an even more far-flung informal trading and financial empire that bound the world. It is unsurprising that, despite apprehensions over US and German industrial competitiveness, significant parts of the British elite believed that they had been given “a gift from the Almighty of a lease of the universe for ever”.

The Jubilee turned out to be “final sunburst of an unalloyed belief in British fitness to rule” (12). The second Boer war (1899-1902) fought to preserve the routes to India and secure the weakest link in the imperial chain, wasted British wealth and blood and revealed the atrocities of scorched-earth policies to a restive British public. “The South African War was the greatest test of British imperial power since the Indian Mutiny and turned into the most extensive and costly war fought by Britain between the defeat of Napoleon and the First World War” (13). The war that broke out in 1914 bankrupted and exhausted its European protagonists. The long end of the British era had started. However, the empire not only survived the immediate crisis but hobbled on for decades, through the second world war, until its inglorious end at Suez in 1956. Still, a nostalgia for lost grandeur persists. As Tony Blair’s Mesopotamian adventures show, the imperial afterglow has faded but is not entirely extinguished.

For the US power elite, being on top of the world has been a habit for 60 years. Hegemony has been a way of life; empire, a state of being and of mind. The institutional realist critics of the Bush administration have no alternative conceptual framework for international relations, based on something other than force, the balance of power or strategic predominance. The present crisis and the deepening impact of global concerns will perhaps generate new impulses for cooperation and interdependence in future. Yet it is just as likely that US policy will be unpredictable: as all post-colonial experiences show, de-imperialisation is likely to be a long and possibly traumatic process.