30/04/07

Título: 1 Grupo dos Sete

Sex, 27 de Abr de 2007 2:44 pm
Valor Econômico



Data: 27/04/2007
Crédito: Celso Amorim

(Nota da AIG: Com foto do Chanceler)

Diplomatas - assim como cientistas políticos e jornalistas - gostam de inventar nomes para explicar processos novos que surgem a cada momento. Há alguns anos era moda falar de "coalizões de geometria variável" para designar grupos de países que, por motivos diversos, formavam alianças aqui e ali, duradouras ou não. Assistimos hoje a uma proliferação de "Gs" que fazem parte do dia-a-dia da diplomacia.

O G-7 surgiu na década de 1970 como um agrupamento informal dos "sete países mais ricos do mundo". Com o tempo, o G-7 foi ampliando sua atuação, estruturando encontros periódicos em várias áreas e realizando cúpulas anuais. Após a admissão da Rússia, em 1998, passou a manter reuniões no formato G-8, embora os sete continuem a se encontrar separadamente para tratar de temas na esfera econômica.

O Grupo dos Sete não possui estrutura fixa ou administração permanente. Cabe ao país que ocupa sua presidência propor a agenda da cúpula e preparar sua organização. A idéia básica é fazer com que os líderes discutam, uma vez por ano, as principais questões internacionais e cheguem a acordos informais sobre medidas que podem ser tomadas individualmente, mas de maneira cooperativa.

O formato original do G-7, como um "clube dos ricos", obviamente não é o mais adequado para o século XXI. Atravessamos hoje um período de graves desafios no cenário internacional, alguns dos quais nos acompanham de longa data: a fome e a pobreza, a exclusão social, a degradação do meio ambiente, as violações de direitos humanos, as armas de destruição em massa e os conflitos em diferentes regiões. Nosso mundo continua profundamente desigual e injusto.

Para enfrentar esses desafios, que são múltiplos e interligados, é necessário desenvolver uma ação coordenada e solidária. Nesse esforço, existem muitos mecanismos de que os Estados se utilizam para tentar gerenciar a ordem internacional.

Mecanismos informais como o G-7/8 não eludem a necessidade de fortalecer o sistema multilateral e ampliar os canais de participação dos países em desenvolvimento nas instâncias decisórias formais.

O Conselho de Segurança da ONU precisa ser urgentemente expandido com vistas a ampliar sua representatividade, legitimidade e eficácia. Esse tem sido o objetivo da atuação do G-4, que o Brasil integra ao lado de Alemanha, Índia e Japão.

Na Organização Mundial do Comércio, a criação do G-20 (mais um "G"!) alterou o padrão das negociações comerciais e introduziu um elemento inovador na estrutura de seu sistema decisório, com a presença de países em desenvolvimento em círculos outrora exclusivos aos mais ricos.

É natural, entretanto, que esses mecanismos, formais e informais, interajam constantemente. A partir de 2003, por iniciativa do presidente da França, Jacques Chirac, anfitrião da Cúpula de Evian, líderes do mundo em desenvolvimento começaram a ser convidados a participar de segmentos das cúpulas do G-7/8. Na ocasião, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva levou aos demais líderes sua preocupação com o combate à fome e à pobreza, tema que foi ganhando espaço maior na agenda internacional.

Na cúpula de 2005, realizada em Gleneagles, Escócia, o foco esteve na mudança do clima. Foi nessa cúpula que, como forma de levar adiante o diálogo ampliado do Grupo com países em desenvolvimento, começou a desenhar-se o formato G-8+5 (África do Sul, Brasil, China, Índia e México).

Em São Petersburgo, no ano passado, o Brasil coordenou a redação da declaração do grupo de países em desenvolvimento, que acrescentou aos três tópicos principais da cúpula (segurança energética, educação e doenças infecciosas) as questões do comércio internacional e da mobilização de recursos financeiros.

A próxima cúpula do G-7/8 será em Heiligendamm, na Alemanha, de 6 a 8 de junho. O presidente Lula estará lá, convidado pelo governo alemão, do mesmo modo que os mandatários dos outros quatro países do diálogo ampliado. Os temas a serem examinados incluem mudança do clima, energias renováveis, investimentos e propriedade intelectual, além da situação do continente africano. Mesmo não constando da agenda, é provável que as negociações comerciais sejam abordadas à luz dos desdobramentos mais recentes da Rodada Doha da OMC.

O importante a destacar é que se vai consolidando uma percepção entre os próprios países ricos de que os grandes temas globais não podem ser tratados sem a participação de países em desenvolvimento. Em assuntos que afetam a economia mundial, por exemplo, qualquer formato que exclua os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) simplesmente não vai funcionar.

O diálogo ampliado do G-7/8 deve ser aperfeiçoado e estruturado em bases mais permanentes. Idealmente, esse processo levará à criação de um novo "G" (se um G-11, G-12 ou G-13, não sabemos ainda), sem prejuízo das instâncias multilaterais formais.

A questão fundamental é que há cada vez mais clareza de que a chamada governança global não terá futuro se as discussões ficarem restritas somente aos mais abastados. Não é sábio nem prático ignorar os anseios de mais de três quartas partes da humanidade.

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