05/06/07

40 anos após conquistas, Israel vive dilema

40 anos após conquistas, Israel vive dilema
Análise é de Rosemary Hollis, especialista em Oriente Médio.
Ela comenta as 4 décadas da Guerra dos Seis Dias.
Daniel Buarque

Do G1, em São Paulo

Há exatos 40 anos Israel obteve uma histórica vitória militar no
Oriente Médio e redesenhou o mapa múndi. Com muitas bombas e pesada
artilharia, conquistou territórios de países vizinhos e trocou de
papel: deixou de ser a vítima dos árabes e assumiu o protagonismo
geopolítico na região. Mas passadas quatro décadas Israel enfrenta
agora um dilema: como conciliar os três objetivos da criação do país
(manter-se um Estado judeu, democrático e na terra bíblica).





A análise é de Rosemary Hollis, diretora do programa de estudos do
Oriente Médio do Instituto Real de Relações Internacionais da
Inglaterra. "De um pequeno país ameaçado e vulnerável, a guerra fez
emergir uma nova potência regional, capaz de conquistar o
reconhecimento das nações que o ameaçavam. Israel passou a ser visto
como o conquistador. E agora tem que saber lidar com esse protagonismo
e com seus interesses, nem sempre convergentes", afirmou ela em
entrevista ao G1, por telefone.


Para Hollis, é impossível satisfazer os três objetivos
simultaneamente. Se quiser ter um Estado no território desejado, deve
capturar uma população árabe (que era de 1 milhão em 1967 e chega
perto dos 4 milhões atualmente), e daí a predominância judaica deixa
de existir, a não ser que se imponha uma espécie de apartheid. Se
quiser ter a predominância judaica e a democracia, precisa abrir mão
do território. O dilema atualmente é como equilibrar os três
objetivos", explica a pesquisadora inglesa.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista.


G1 - É possível considerar a vitória israelense na Guerra dos Seis
Dias completa?
Rosemary Hollis - Israel saiu da guerra vitorioso, em termos
militares, mas levou consigo dois problemas imensos. Em primeiro
lugar, sua imagem foi transformada por sua vitória total. Ele deixou
de ser um pequeno David que se confrontava com o Golias árabe e se
tornou o grande personagem da disputa, o opressor dos palestinos. Hoje
Israel não é mais visto como a vítima das agressões na região, que tem
sua existência ameaçada, como acontecia naquela época. Hoje ele é o
principal personagem dessa história do Oriente Médio, e tem que fazer
concessões para chegar à paz.





Imagem mostra fumaça após ataque israelense ao Egito, em 1967 (Foto:
Reuters)O segundo ponto é que Israel ficou num dilema de segurança,
depois de 1967. Eles [os israelenses] podiam voltar a ser de um
pequeno país, mais vulnerável, ou podiam capitalizar a vitória da
Guerra dos Seis Dias, mantendo um território maior e mais seguro,
devolvendo apenas parte das terras conquistadas. A questão é que nesse
processo, junto com as terras, eles capturaram uma fração da população
palestina, que passou a ser dominada por Israel e a resistir a esta
dominação, criando uma nova forma de insegurança.


Este dilema atinge em cheio os três objetivos dos sionistas ao criarem
Israel, que eram ter um Estado judeu, democrático e na terra bíblica.
Mas é impossível ter os três. Pois, se quiser ter um Estado no
território desejado, deve capturar uma população árabe (que era de 1
milhão em 1967 e chega perto dos 4 milhões atualmente), e a
predominância judaica deixa de existir, a não ser que se imponha uma
espécie de apartheid. Se quiser ter a predominância judaica e a
democracia, precisa abrir mão do território. O dilema atualmente é
como equilibrar os três objetivos.


G1 - Como a Guerra dos Seis Dias se reflete na atual situação de
conflitos no Oriente Médio?
Hollis - Há duas questões importantes. A primeira é que há um conflito
histórico sobre a localização do Estado de Israel na região, fato
interligado à questão dos refugiados palestinos, que vem desde a
criação de Israel e a guerra de 1948. É um conflito bem anterior à
Guerra dos Seis dias, e que se mantém até hoje.





A pesquisadora britânica Rosemary Hollis ( Foto: Divulgação)A segunda
questão é que depois da guerra de 1967 as possibilidades para a
resolução do conflito se distanciaram da discussão sobre a própria
existência de Israel. Israel conseguiu isso em seu tratado de paz com
o Egito em 1978, quando devolveu os territórios daquele país em troca
de paz. Uma paz que dura até hoje entre os dois países. Há uma questão
controversa na relação entre Israel e os países árabes, que exigem que
o seu território conquistado por Israel também seja devolvido.


G1 - Como a guerra afetou a relação de Israel com o resto do mundo e
do mundo com os conflitos no Oriente Médio?
Hollis - Israel tinha muito apoio internacional até o início da Guerra
dos Seis Dias. A vitória arrasadora que teve no conflito mudou sua
posição, deixando de ser visto como vulnerável e passando a ser visto
como o conquistador. Podemos fazer um paralelo com o que acontece com
os Estados Unidos atualmente no Iraque. Não se pode dominar uma
população ocupada contra sua vontade. Os israelenses tiveram a
esmagadora vitória militar, mas se tornaram vulneráveis
internacionalmente por estarem ocupando territórios palestinos contra
a vontade desses povos.




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A opinião internacional, então, varia. Os norte-americanos se
identificam com os israelenses e os acham defensores da democracia
numa região hostil, enquanto na Europa vem crescendo a percepção de
que os israelenses não podem querer estar seguros enquanto ocuparem o
território palestino contra a vontade do povo palestino.

G1 - É possível imaginar como estaria o Oriente Médio hoje em dia se
não tivesse ocorrido a guerra em 1967? Haveria o risco de o Estado de
Israel realmente deixar de existir?
Hollis - Não está totalmente clara a resposta. Os árabes não estavam
preparados para fazer acordos de paz antes da guerra, e estavam
ameaçando Israel, por mais que não tivessem todos os meios militares
necessários para levar a cabo essas ameaças. Acontece que Israel
estava sendo ameaçado, e não tinha como saber da falta de capacidade
militar dos que o ameaçavam.

G1 - Israel justificou a Guerra dos Seis Dias com as ameaças sofridas
pelo Egito e pelos árabes, que queriam acabar com o Estado judaico.
Podemos comparar a situação de então com as atuais ameaças do Irã de
"apagar" Israel do mapa?
Hollis - Sim e não. Claro que os israelenses eram ameaçados naquela
época. Antes da guerra de 1967 eles não podiam esperar ter paz com os
árabes, que queriam eliminá-los. Depois da vitória na guerra, eles
tinham algo para barganhar em troca da paz com os países árabes.
Atualmente, os iranianos não reconhecem Israel e ameaçam o Estado, mas
os israelenses não têm a opção de capturar territórios iranianos para
negociar a paz e o reconhecimento. Tudo o que eles podem fazer é
ameaçar os iranianos. Há 40 anos, Israel tinha uma opção para garantir
a paz. Hoje, não tem. Se Israel atacasse o Irã, não seria possível
saber se ele conseguiria a vitória necessária para negociar uma paz

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