27/02/08

Resenha - Claro Enigma - Drummond

Contexto Historico:
O Modernismo no Brasil

Momento Histórico
- As máquina e o ritmo acelerado da civilização industrial se incorporavam à paisagem brasileira.
- Problemas sociais antigos continuam sem solução, produzindo tensões e conflitos graves. Os meios intelectuais sentem que é preciso reformar o Brasil, mergulhado numa contradição grave: a mesmo tempo em que se modernizava, mantinha uma organização social arcaica.

Características Literárias
- A 1ª fase é a de ruptura com o passado. Humor, uso do coloquial, primitivismo, vanguardas, tudo é válido para criar uma literatura em sintonia com os novos tempos.
- Na 2ª fase se estabelecem o romance regionalista, que retrata uma certa região do pais, e a prosa intimista, que estuda o homem urbano.
- A 3ª fase nega algumas das propostas da 1ª e retorna o uso cuidadoso e consciente da palavra. O número de correntes literárias e autores cresce, o que torna difícil classificar essa fase.



Os poemas de Claro enigma, livro publicado por Carlos Drummond de Andrade em 1951, revelam um poeta ciente da finitude e disposto a analisar as conquistas e perdas da maturidade para, no atrito com o tempo corrosivo, enriquecer sua obra com a expressão das tensões vividas pelo homem que caminha, lúcido, para a morte. Drummond dedica-se a um exercício obstinado para compreender e representar poeticamente os efeitos desse devir nas respostas emocionais, nas ações praticadas e nos sentidos conferidos ao mundo, inserindo o tema na linha da investigação filosófica que anima a obra no período. Nesse movimento, nota a temporalidade vazia e as várias representações que procuram escamotear a angústia do tempo, reagindo a elas com a incondicional aplicação da lucidez na leitura de si mesmo e do objeto. Armado contra as imagens falaciosas do mundo, o poeta anuncia seu desligamento da poesia atravessada pela matéria histórica, que cultivara na década anterior, e, em seu lugar, apresenta uma poesia fortemente dissonante, que pretende a dicção alta e a referência mítica, mas desautoriza o conhecimento produzido pela tradição cultural. A resistência ao fluxo do tempo faz-se pela experiência amorosa e pela memória da família e da província. A vivência do amor permite ao sujeito reelaborar a vida que se esvai, resgatando alguma vitalidade no momento de ocaso. No entanto, é uma experiência antitética, já que sua aprendizagem é solitária e reafirma a morte incorporada. O estado de simpatia com a morte coloca a memória como a mais fundamental experiência do tempo e, nessa linha, a família e a terra natal são revisitadas em função do desejo de compreender a herança material-emotiva que os antepassados legaram. A palavra que rememora recria a família, tornando-a alvo do desejo e de uma prosaica mitificação, mas não basta para anular os conflitos do passado, que emergem e pontuam a singular identidade mineira do poeta. O conjunto
das questões postas por Claro enigma define um paradoxo entre a proposta de idealidade, representada pelo não-tempo do mito, e o aprisionamento no fluxo diruptivo do tempo, promovido pela experiência da madureza. A lucidez impede a instauração da idealidade, mas o simbólico gesto de tirar os olhos do mundo, muito freqüente na obra, evidenciará a necessidade de manutenção de um refúgio para a subjetividade individual. Essa tensão é o principal recurso estruturador de Claro enigma



Os poemas de Claro enigma, livro publicado por Carlos Drummond de Andrade em 1951, revelam um poeta ciente da finitude e disposto a analisar as conquistas e perdas da maturidade para, no atrito com o tempo corrosivo, enriquecer sua obra com a expressão das tensões vividas pelo homem que caminha, lúcido, para a morte. Drummond dedica-se a um exercício obstinado para compreender e representar poeticamente os efeitos desse devir nas respostas emocionais, nas ações praticadas e nos sentidos conferidos ao mundo, inserindo o tema na linha da investigação filosófica que anima a obra no período. Nesse movimento, nota a temporalidade vazia e as várias representações que procuram escamotear a angústia do tempo, reagindo a elas com a incondicional aplicação da lucidez na leitura de si mesmo e do objeto. Armado contra as imagens falaciosas do mundo, o poeta anuncia seu desligamento da poesia atravessada pela matéria histórica, que cultivara na década anterior, e, em seu lugar, apresenta uma poesia fortemente dissonante, que pretende a dicção alta e a referência mítica, mas desautoriza o conhecimento produzido pela tradição cultural. A resistência ao fluxo do tempo faz-se pela experiência amorosa e pela memória da família e da província. A vivência do amor permite ao sujeito reelaborar a vida que se esvai, resgatando alguma vitalidade no momento de ocaso. No entanto, é uma experiência antitética, já que sua aprendizagem é solitária e reafirma a morte incorporada. O estado de simpatia com a morte coloca a memória como a mais fundamental experiência do tempo e, nessa linha, a família e a terra natal são revisitadas em função do desejo de compreender a herança material-emotiva que os antepassados legaram. A palavra que rememora recria a família, tornando-a alvo do desejo e de uma prosaica mitificação, mas não basta para anular os conflitos do passado, que emergem e pontuam a singular identidade mineira do poeta. O conjunto das questões postas por Claro enigma define um paradoxo entre a proposta de idealidade, representada pelo não-tempo do mito, e o aprisionamento no fluxo diruptivo do tempo, promovido pela experiência da madureza. A lucidez impede a instauração da idealidade, mas o simbólico gesto de tirar os olhos do mundo, muito freqüente na obra, evidenciará a necessidade de manutenção de um refúgio para a subjetividade individual. Essa tensão é o principal recurso estruturador de Claro enigma



O poema se marca, pelo menos na sua camada mais evidente, por uma estética corrosiva que se concretiza no processo de interrogações e negações de cunho niilista, em consonância, aliás, com a onda existencialista em voga na década de 50, momento em que surgiu Claro Enigma. Ao eu poético parece nada restar a não ser a constatação da inutilidade de si mesmo e do mundo, numa reafirmação da visão shopenhaueriana, que também em Heidegger e Sartre encontra eco, segundo a qual é inerente ao homem a sua condição de ser para a morte. Esse recorte singular e solitário da individualidade contra os “monstros atuais” (7º verso), num diálogo surdo com o mundo, mostra-se como a face mais visível do poema de Drummond que, habilmente, guarda como seu trunfo maior aquilo que fará despontar, em seu final, para ser a contraface desse desencanto. É que, embora predominem espressões disfóricas que vão intensificando ao longo do poema o sentido da negação (ou do canto nenhum a ser legado), há outro sentido - o traçado pelo “passo caprichoso” - a irromper para além das negações.

O que interessa a Drummond quanto ao legado a deixar não é a sua obra enquanto totalidade ou acabamento, nem como universo reconfortante, mas como caminho de construção de uma escrita que se escreve dentro e fora do poeta, afirmando-o e libertando-o de seus limites. É o que diz Maurice Blanchot a respeito da obra, vista como fala errante: “uma obra está concluída, não quando o é, mas quando aquele que nela trabalha do lado de dentro pode igualmente terminá-la do lado de fora, já não é retido interiormente pela obra (...)” (1987, p. 48) E a saída que o eu-lírico drummondiano encontra para não ficar retido em sua obra é deslizar para um diálogo irônico com ela, examinando-a com o olhar do “vasto mundo” que o poeta já incorporara em sua poesia de 1930 (em “Poema de sete faces”, por exemplo) e agora recupera para reescrever em outros moldes aquela rima desencontrada com o mundo. O verso “Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.” não é senão um desdobramento de outros, legados de sua poesia passada: “Mundo mundo vasto mundo, / se eu me chamasse Raimundo (...)” - mas uma fala agora já mais amadurecida pelo corroer da consciência e menos explícita quanto ao jogo travado com a própria linguagem. Abandonada a rima, que seria apenas uma solução formal e não resolveria o conflito maior, de natureza semântico-existencial, o que fica para o poeta explorar nessa nova investida contra o mundo é uma matéria que não oculta a sua negatividade constitutiva: o canto não será radioso, não terá poder para desfazer a bruma ou espinhos, muito menos para seduzir ou encantar, diz o poeta. A voz órfica só existe mesmo como referência longínqua para uma modulação lírica moderna desacreditada de seus poderes

2 comentários:

Anônimo disse...

Adorei.

Anônimo disse...

Excelente!