07/03/08

Resenha - O Brasil: território e sociedade M. Santos M. Laura

Na busca de uma periodização pelo território brasileiro
é um partido essencial para um projeto ambicioso:
fazer falar a nação pelo território. Assim como a economia
foi considerada como a fala privilegiada por
Celso Furtado; o povo, por Darcy Ribeiro; e a cultura,
por Florestan Fernandes, pretendemos considerar o
território como a fala privilegiada da nação.
Essa citação de Milton Santos na obra escrita
junto com Maria Laura Silveira sintetiza bem o desejo
de caracterizar sua contribuição intelectual, cujo
papel seminal na geografia tem sido reconhecido no
Brasil e no mundo inteiro. Os autores partem de um
conceito central “território em uso” para designar a
profunda imbricação entre os artefatos e as técnicas
que transformam os espaços, com a política, a economia
e as relações que conferem direção e sentido a
essas transformações. Deixam claro que as mudanças
ficam registradas nas diferentes escalas com que
o território é apropriado e construído.
Em alguma parte do livro, os autores criticam as
pretensões totalizadoras da sociologia e da economia
que tenderiam a desconhecer a importância do espaço
construído, como se apenas as “relações” contivessem
a totalidade da realidade social. Lembrei-me então
de alguns conceitos caros a uma corrente da filosofia
e da sociologia dialética pensados por autores
como Goldmann e Sartre, à qual me filio, que discutem
as estruturas e os espaços construídos como
ações humanas objetivadas. Esse é o caso também do
pensamento de autores como Nicole Romognino cuja
sociologia dialética se funda na compreensão dos
fenômenos sociais como processos históricos; como
totalidades de significações construídas pelos sujeitos
e como totalidades significativas que se concretizam
na materialidade das formas sociais.
O Brasil: território e sociedade no início do século
XXI pode ser lido como uma síntese científica do
pensador Milton Santos, que criou escola e se associou
– como é o caso da parceria com Maria Laura –
para formular e difundir conceitos e metodologias e
criar discípulos, distinguindo sua contribuição de
tantas outras diferentes abordagens, com as quais
ora converge ora diverge. Mas é também o exemplo
didático de um autor que criou teoria, conceitos, métodos
e técnicas, testou-as na prática, expondo exemplos
de análises e se preocupando em atingir um
grande público. Sem nenhum caráter messiânico,
Milton Santos se tornou responsável pela multidão
de estudiosos que passaram a dividir a história da
geografia no período anterior e posterior a sua contribuição
acadêmica. Teoria e empiria marcam toda
a tessitura desta obra.
Os dois autores assim definem os objetivos de
seu trabalho: levar ao leitor comum uma interpretação
geográfica do Brasil; e oferecer aos estudiosos um

guia de trabalho, ainda que incompleto. E para isso,
discutem o lugar e a importância do que denominam
teorias menores, em contraposição às macro-teorias
que não conseguem propor esquemas aplicáveis de
análise. Consideram seu segundo objetivo sugerir
uma teoria das mediações, na qual a escolha dos fatos
e relações relevantes possa estar apoiada.
O trabalho apresenta a seguinte divisão conceitual:
no primeiro capítulo uso do território é a noção
central. No segundo, três conceitos estruturantes para
análise das transformações do Brasil são apresentados:
o meio natural (hoje quase inexistente); os sucessivos
meios técnicos e o advento do meio técnicocientífico-
informacional. O terceiro capítulo trata,
substantivamente, da constituição do meio geográfico
brasileiro através da história, articulando-se espaço
e tempo. Na quarta e quinta partes, os autores
aprofundam o papel da informação e do conhecimento
na reorganização produtiva do território e
suas especializações. Nos capítulos seis e sete, ganha
forma a idéia de movimentos e círculos de cooperação
que se multiplicam no território nacional, configurando
a modernidade do país. No capítulo oito, os
autores tratam da fluidez e da potência do capital financeiro
como motor do período contemporâneo no
Brasil e no mundo globalizado. No capítulo nono,
mostram como os diferentes fluxos de dinamismo
industrial, dos setores de serviços e financeiros, próprios
da atualidade, dão lugar a uma dinâmica populacional
diferenciada que marca o crescimento das
cidades médias e uma certa decadência das grandes
metrópoles; assim como uma cultura que passa a valorizar
a especificidade local em um quadro de comunicação
globalizada.
O livro, em sua segunda parte, trata da dinâmica
globalizadora num país de tão grandes extensões como
o Brasil que passa a ser um espaço nacional da
economia internacionalizada. Esse tema é discutido
de forma didática e aguçada a partir do conceito de
meio técnico-científico-informacional. A idéia central
dessa parte é que os círculos de cooperação instalam-
se num nível superior de complexidade e numa
escala geográfica muito mais ampla. A plena explicitação
da etapa metamorfoseada do território
brasileiro em meio técnico-científico-informacional
é apresentada como a cara geográfica da globalização.
Pois os acréscimos da ciência, tecnologia e informação
ao território são, ao mesmo tempo, produto e
condição para o desenvolvimento do trabalho material
e intelectual.
Especificando a originalidade do momento atual
a partir da classificação marxista do ciclo econômico
que se realiza pela produção, circulação e reprodução
de bens e mercadorias, os autores pontuam que,
no presente, a circulação preside a produção. E os fluxos
que daí derivam são mais intensos, mais extensos
e mais seletivos, redimensionando o território
em todas as escalas. Os autores falam de quatro grandes
regiões do Brasil nesse atravessamento de século,
denominando-as Quatro brasis. Seriam: uma região
concentrada formada pelo Sudeste e pelo Sul; o Brasil
do Nordeste; o Centro-Oeste e a Amazônia. Nessas regiões
estariam presentes dualidades e contradições:
zonas de densidade e de rarefação; espaços de rapidez
e lentidão; espaços que mandam e espaços que
obedecem. Assim se referem que: num movimento
desigual e combinado, cria-se uma nova geografia do
Brasil, caracterizada, quanto à nova tecnosfera, por
uma região concentrada e por manchas e pontos, enquanto
há uma tendência à generalização da nova
psicosfera, característica do presente período histórico.
O livro termina com oito estudos de caso que são
especificações concretas, por outros estudiosos, do
uso da teoria, do método e das técnicas propostos
por Milton Santos e Maria Laura Silveira. Além de
toda a riqueza conceitual e empírica, há muitos mapas
que localizam, para o leitor, as periodizações, as
especificidades geográficas, demográficas, sociais,
econômicas, técnicas e científicas, e permitem perceber

perceber
a complexidade do momento atual. O livro é um
presente aos leitores que pretendem cultivar uma
consciência crítica que respire, ao mesmo tempo,
muita esperança. De cada página, seus autores fazem
emergir liberdade científica, ética acadêmica, amor
pelo Brasil e compromisso com as gerações presentes
e futuras que continuarão usando e construindo
o território brasileiro. Com certeza, chegaram ao que
pretendiam: propor uma teoria do Brasil a partir do
território, uma tentativa de explicação da sociedade
tomando como pano de fundo o próprio espaço geográfico.
Há uma profusão de conceitos nucleadores e
de idéias-chave espalhadas pelas quase 500 páginas
do livro. Deixo ao leitor o privilégio de saciar sua curiosidade
intelectual e de reinterpretar, de acordo
com seu olhar, a beleza e a grandeza do pensamento
de Milton Santos e de Maria Laura Silveira.

Um comentário:

Anônimo disse...

É sempre bom, legal e ético citar a fonte de onde o texto foi copiado:
www.scielo.br/pdf/csc/v8n2/a25v08n2.pdf