10/03/07

A ilusão antiamericana

O Globo

Assunto: Opinião
Título: 1n A ilusão antiamericana/Opinião
Data: 08/03/2007
Crédito: Demétrio Magnoli, sociólogo e doutor em geografia humana pela USP

Demétrio Magnoli, sociólogo e doutor em geografia humana pela USP
Dias antes da chegada de George Bush ao Brasil, em diálogo telefônico,
Fidel Castro e Hugo Chávez qualificaram o etanol como uma "tragédia",
argumentando que converter culturas agrícolas em biocombustíveis
equivale a provocar escassez de alimentos e de água. "Os EUA precisam
reduzir o consumo de energia, essa é a solução", pontificou o
presidente venezuelano. O retrato dos EUA como um ogro devastador
assume formas mutáveis, mas sempre adaptadas às circunstâncias. Ontem,
a acusação versava sobre o vício americano em petróleo. Hoje, sobre um
plano maléfico para disseminar a fome.
A visita de Bush desperta atenções inauditas, por óbvias razões
geopolíticas. Há mais que isso, contudo. Enquanto Lula assina os
protocolos de cooperação com aquele que Chávez qualifica como
"demônio", bonecos de Bush são queimados na rua por militantes do PT,
da CUT e da UNE. A tensão dilacerante opera numa camada profunda da
política, que se confunde com a cultura. A parceria entre Lula e Bush
está golpeando o tronco do antiamericanismo, sobre o qual se ergue a
copa da esquerda latino-americana.
Alain Rouquié qualificou a América Latina como o "Extremo Ocidente". A
conquista européia semeou, nesta parte do mundo, sociedades
"inferidas", que querem ser Ocidente e se miram no modelo dos EUA, a
epítome da modernidade ocidental. Mas a América Latina é, ao mesmo
tempo, o "Terceiro Mundo ocidental", ou seja, um Ocidente incompleto,
que inveja e rejeita o seu modelo. Os EUA são alvo, em graus variados,
de ressentimentos no mundo todo. Mas só na América Latina o
antiamericanismo figura como alicerce estrutural do pensamento de
esquerda.
Em "O espelho indiscreto", o mexicano Octavio Paz reflete sobre o
lugar dos EUA na produção da identidade de seu país: "A paixão dos
nossos intelectuais pela civilização norte-americana oscila do amor ao
ódio e da adoração ao horror. Formas contraditórias, porém
coincidentes, da ignorância: num extremo, o liberal Lorenzo de Zavala,
que não vacilou em tomar o partido dos texanos na guerra contra o
México; no outro, os marxistas-leninistas contemporâneos e seus
aliados, os "teólogos da libertação", que fizeram do imperialismo
norte-americano a prefiguração do anticristo."
A contigüidade geográfica acentua as cores, mas o desenho se aplica,
de modo geral, à América Latina. Os EUA são o avesso e, sobretudo, o
avesso do avesso: a modernidade idealizada, almejada tão intensamente
quanto temida e caluniada. A Revolução Americana, fonte da primeira
república contemporânea, inspirou Bolívar. Hoje, o programa dos
"bolivarianos" é a unidade latino-americana contra os EUA.
Durante a Guerra Fria, o antiamericanismo da esquerda latino-americana
veiculava apenas a adesão a Moscou e ao "socialismo real". A queda do
Muro de Berlim representou a perda de uma visão de futuro. Socialismo
converteu-se em pouco mais que uma expressão vazia: no máximo, como
acontece na Venezuela, uma moldura em busca de uma paisagem. Do
colapso, restou um sedimento ideológico, que é o nacionalismo e a
aversão à globalização. O antiamericanismo sintetiza essa doutrina em
fiapos, que eventualmente funciona como ponto de encontro entre
representantes dos extremos do espectro político.
Karl Marx escreveu, em novembro de 1864, uma carta ao presidente
americano Abraham Lincoln, congratulando-o por sua reeleição, que
assegurou a continuidade da guerra contra os confederados. Nela, Marx
prestou homenagem à "grande República Democrática" e à sua pioneira
Declaração dos Direitos do Homem. O fio de continuidade entre
democracia e socialismo, imaginado pelos líderes de esquerda do século
XIX, foi rompido pelos Estados totalitários do "socialismo real", no
século XX. O antiamericanismo de esquerda dos nossos dias é um fruto
retardatário dessa ruptura histórica.
A delinqüência política e intelectual dos antiamericanos deita raízes
num solo arado pela tragédia de 11 de setembro de 2001. A figura de
Bush, o presidente de Abu Ghraib e Guantánamo, cumpre uma função de
álibi incondicional. Escondidos atrás do pretexto de combatê-lo, os
órfãos do totalitarismo pintam tiranos como heróis e sonham com a
restauração de sociedades carcerárias.
Na sua resposta a Marx, Lincoln afirmou que as "nações não existem
apenas para si mesmas, mas para promover o bem-estar e a satisfação da
Humanidade, pelo intercâmbio benevolente e pelo exemplo. É sob essa
luz que os EUA enxergam sua causa no presente conflito contra a
escravatura, sustentando a insurgência como uma bandeira da natureza
humana." Eis o motivo pelo qual, de certo modo, todos somos
americanos. Apesar de Bush.

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